Vacina Covid-19: a importância do pacto do Governo Federal, Estados e Municípios na gestão SUS

Atualizado: Jan 14



Wildo de Araújo, professor de epidemiologia da Unb.

Em entrevista, o professor de Epidemiologia da Universidade de Brasília (UnB), Wildo Navegantes de Araújo, falou sobre a atraso e inépcia do governo no gerenciamento da entrega das vacinas à população e o consequente interesse da iniciativa privada na compra da vacina, além da importância da pactuação entre as três esferas de Gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). Confira.


Equipe ADUnB - A vacinação de apenas parte da população pode facilitar novas mutações do vírus?


Wildo Araújo - Qualquer vírus depende da estrutura das células do corpo dos hospedeiros (neste caso pessoas) suscetíveis para se multiplicarem, assim, os vírus tendem a mutar com a necessidade de passar por vários hospedeiros. Alguns mais outros menos.


O Coronavírus apresenta mutações também. Desta forma, quanto mais vacinados com uma vacina que iniba a infecção, menor probabilidade do vírus encontrar alguma pessoa suscetível e, por conseguinte, reduza as mutações já que o vírus não encontrará muitas pessoas suscetíveis para se replicar.


Equipe ADUnB - Qual a importância de se priorizar as pessoas do grupo de risco?


Wildo Araújo - Os grupos de risco precisam ser priorizados pois tendem a sofrer mais pela doença, incluindo internações e até o óbito, assim como estes estão mais expostos ao risco de infecção a exemplo dos profissionais de saúde!


Equipe ADUnB - Por que vacina para todos?


Wildo Araújo - A ideia de termos vacinas para todos passa por vários motivos. Quanto mais pessoas vacinadas, menos alguém com o Coronavírus poderá passar para outras pessoas suscetíveis. Assim, muita gente vacinada favorece com que tenhamos o que chamamos de imunidade coletiva.


A oferta de vacinas para todos é uma das políticas públicas mais equânimes que existem no Sistema Único de Saúde, por mais que vivamos em um dos países com maior desigualdade social do mundo.


Historicamente, há mais de 40 anos, é papel do Ministério da Saúde definir a política nacional de imunização, mas atualmente neste governo a doença não tem sido tratada como prioridade de saúde pública, assim como o plano nacional de vacinas.


Um plano nacional de imunização é estratégico pois endereça as forças voltadas à oferta de uma vacina, no caso da Covid-19, pois no plano constam vários eixos de atuação. Desde as questões de comunicação de risco sobre a importância da vacina, mesmo que ela ainda não existisse, até depois da administração das vacinas nas pessoas, ou mesmo o monitoramento de possíveis novos vírus que advenham depois que esta cepa pandêmica seja suprimida com a vacinação, e os outros esforços de controle.


A capacidade de vacinar em pouco tempo mais de 200 milhões de pessoas está na oferta de número de doses para o total da população, por isso é necessário o estabelecimento de grupos prioritários no Brasil e no mundo.


Contudo, como o Brasil está atrasado em todo o seu planejamento de resposta à pandemia, incluindo as vacinas. Eu não acredito que consigamos oferecer vacinas para todos em menos de um ano, pelo menos com as notícias que dispomos sobre a capacidade de entrega das instituições produtoras de vacinas para Covid-19 hoje aprovadas em órgãos de fiscalização e controle na área de saúde, como as agências europeias, britânicas ou americana, ou aquelas da latino-américa com o parque de vacinas que dispomos neste momento.


Equipe ADUnB - Como você vê essa corrida da rede privada no Brasil para a compra da vacina?


Wildo Araújo - Isso só está acontecendo pela inépcia do governo. Se o governo tivesse capitaneado essa ação, não haveria interesse pela rede privada para vender um produto que está com alta procura comercial.


O Governo Federal, por comprar milhões de doses, consegue um preço em escala muito baixo, além do que, por obter laboratórios públicos que produzem a vacina, permite ter um preço absurdamente baixo que as empresas privadas não conseguem competir! Se o governo federal atuasse corretamente, sequer o empresariado iria se preocupar em entrar no mercado específico da vacina para a Covid-19!


Apenas uma estratégia coletiva de vacinação terá sucesso na imunização da população diretamente pactuada com as três esferas de gestão do SUS, incluindo a participação social. Se o governo federal atuasse corretamente, sequer o empresariado iria se preocupar em entrar no mercado específico da vacina para a Covid-19!