Para sociólogo, Bolsonaro promove processo de "incivilização" no Brasil

"É um momento de luta novamente, e nossas armas são a cultura, o ensino e a pesquisa".


O pesquisador Carlos Benedito Martins, professor do Departamento de Sociologia (SOL) da Universidade de Brasília, recebeu o Prêmio Excelência Acadêmica da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) na área de Sociologia, em 2020. Ele foi o primeiro professor da UnB a ser agraciado nesta categoria, e conversou com a ADUnB sobre o momento obscurantista que a ciência e a academia atravessam no Brasil.


Com destacada produção intelectual e um trabalho institucional em prol das ciências sociais, Martins acumula mais de quatro décadas de pesquisas nas áreas de Teoria Social, sociologia da educação e do ensino superior, e sociologia dos intelectuais. Ele contribuiu na consolidação de mais de 15 cursos de pós-graduação em Ciências Sociais no país.


Foi presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), em dois mandatos consecutivos, de 2015 a 2019; assessor da presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); atuou junto à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs); é Membro do Comitê Editorial da Revista Current Sociology, órgão oficial da International Sociological Association (ISA), e acumula experiências em diversas associações e outras instituições ligadas à área.

Vinculado à Universidade de Brasília desde 1987, Martins foi professor visitante em diversas instituições fora do Brasil, como a Universidade de Oxford, Universidade de Lisboa, na Universidade Livre de Berlim, Universidade de Hong Kong e a Universidade Nacional de Singapura.


Sua pesquisa tem um papel relevante na teoria sociológica contemporânea e hoje é direcionada ao ensino superior com foco na globalização. Poderia comentar um pouco sobre suas descobertas, e como o Brasil está colocado neste quadro?


Atualmente, venho fazendo pesquisas sobre mudanças que estão ocorrendo no ensino superior em um plano internacional. Sou pesquisador do CNPq e esta pesquisa encontra-se acoplada a um projeto que desenvolvo como bolsista de produtividade do CNPq.


Para realizá-la, fiz pesquisa de campo, nos últimos quatro anos, em vários países, como França, Inglaterra, Alemanha, China, Cingapura, etc. Os dados que recolhi mostram que estes países e outros que ocupam posições de destaque no panorama internacional do ensino superior possuem um número elevado tanto de professores estrangeiros quanto de alunos.


O Brasil tem um número ínfimo de professores e alunos estrangeiros. Além de estabelecer conexões acadêmicas com o norte e o sul do planeta, precisamos viabilizar um número maior de docentes e discentes no país.


Como fazer isto em função de uma política externa desastrosa, isolacionista e pautada por princípios ideológicos equivocados? Eis o problema. Mas temos que enfrentá-lo.


A dificuldade na internacionalização do ensino superior é também efeito de um governo que ataca frontalmente a educação pública e difama as universidades. Qual sua percepção deste momento político?


É um governo de retrocessos, a universidade está sendo cerceada de várias maneiras, com corte de verbas e dos orçamentos tanto das instituições como dos órgãos de financiamento à pesquisa. É muito triste. Ano que vem vou fazer 50 anos de carreira acadêmica. Venho da geração de 68, participei do movimento estudantil e lutei nas ruas pelas liberdades e contra a ditadura. Passamos um período muito difícil na ditadura em termos de censura à imprensa e às universidades, tínhamos o Decreto 477, por exemplo, que punia professores e estudantes que fossem contrários ao regime. A gente lutou muito contra isso e conseguimos reconstruir a democracia no país.


Agora o Brasil passa por um processo anticivilizatório. Estamos vivendo um período extremamente obscurantista, com um governo autoritário que despreza a ciência e as universidades e tem ódio à cultura e à inteligência. É um governo que cultua a incivilização, e não apenas no aprofundamento da desigualdade e na questão político-econômica, mas que se propõe a liberar armas e a cortar o financiamento à educação pública. É um momento de muita dor, muito cruel para a gente, que acreditou num Brasil melhor.



Como definiria o papel das universidades nesta conjuntura?



A universidade é uma frente de resistência muito importante das liberdades acadêmicas, de expressão e da luta pela democracia. É um momento de luta novamente e nossas armas são a cultura, o ensino e a pesquisa. Temos que usar essas armas para alertar a sociedade de que a nossa democracia está sendo comida pelas beiradas.


Temos que nos posicionar contra a nomeação arbitrária de reitores que estão fazendo políticas incompatíveis com o ambiente acadêmico, que é o lugar de dissenso. Precisamos lutar pela liberdade de cátedra e para defender a autonomia e o orçamento das universidades. Que elas continuem livres, com pessoas de diferentes posturas ideológicas e políticas que respeitem o debate e continuem fazendo pesquisa, ensino e extensão.


E como mobilizar a comunidade acadêmica nesta luta?


Na academia é um momento muito difícil. As associações estão atentas ao momento político, mas estamos enfrentando um problema de desmobilização diante da pandemia. O governo está sendo beneficiado pela crise sanitária, que tem impedido maior mobilização dos movimentos coletivos.


Qual seria a saída possível?


Temos que começar fortalecendo os laços entre as associações científicas, acho que elas têm um papel muito grande. A ABC e a SBPC são as duas maiores entidades representativas da comunidade científica: só a SBPC tem mais de 150 associações científicas no Brasil, com uma força e protagonismo muito grandes no debate acadêmico. É o momento de fazer essas ligações institucionais. O combate tem que ser coletivo e em nome de princípios democráticos, de igualdade social e de oportunidades.


Receber esse reconhecimento da ANPOCS me deu mais energia. Acredito que temos que deixar de lado pequenas desavenças políticas e/ou intelectuais e criar uma grande frente de resistência para fortalecer a democracia. Temos que continuar com as nossas pesquisas, mas é um momento de mobilização, assim como na ditadura.


É preciso sair um pouco da academia e criar laços com outros setores da sociedade que estão atentos a esse momento, unindo forças com a sociedade civil, a imprensa, o parlamento e a Justiça.


Com sua experiência em diversas instituições científicas e de fomento à pesquisa, qual é sua percepção a respeito da pós-graduação no Brasil e das perspectivas de futuro para a internacionalização do ensino superior?


Hoje temos uma pós-graduação no Brasil que é a melhor da América Latina. A comunidade acadêmica brasileira é cosmopolita, com muitos pesquisadores com doutorado ou pós-doutorado no exterior. Temos um padrão de ciência que é universal, um padrão de qualidade, que veio muito desse contato dos pesquisadores brasileiros com outras partes do mundo.


A sociologia brasileira, por exemplo, é extremamente internacionalizada e integrada com diversos centros importantes de produção de conhecimento do mundo. No Brasil, ela tem experimentado um processo de expansão, com mais de 50 programas espalhados de norte a sul e pesquisadores altamente qualificados. Isso só foi possível com investimento do governo federal.


Hoje o governo faz de tudo para desqualificar essa produção, com uma postura antiglobalista e falsamente nacionalista, mas a globalização do conhecimento é um fato inevitável.


Precisamos de organismos que financiem essa globalização, mas, lamentavelmente, no Brasil estamos vivendo o contrário, com corte generalizado das verbas. Não podemos abrir mão da mobilidade acadêmica, não podemos recuar nessa pauta. Precisamos de mais verbas.


As associações científicas como a SBS (Sociedade Brasileira de Sociologia), a ABA (Associação Brasileira de Antropologia) e a ABCP (Associação Brasileira de Ciência Política) devem estar ao lado da SBPC para defender verbas para a educação em todos seus níveis e lutar pelo aumento dos orçamentos da Capes e do CNPq, que viabilizam a pós-graduação nacional e a pesquisa no país.


E repito: este é o momento da universidade se juntar a outros atores da sociedade civil pela luta em defesa da democracia, da liberdade de expressão e da produção cultural, que encontra-se viva e viceja em vários cantos do país.


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