País tem plano nacional de vacinação superficial e atrasado

Atualizado: há 5 dias

Confira a conversa com o professor, epidemiologista da Sala de Situação de Saúde da UnB, Jonas Brant, sobre a vacinação do Coronavírus no Brasil. Ele aborda a questão ética e constitucional da vacinação para todos e todas antes da entrada do setor privado na vacinação.



Equipe ADUnB - Qual foi a sua avaliação do plano nacional de vacinação apresentado pelo governo?


São dois aspectos que temos que levar em consideração. É um plano muito pouco detalhado, fala sobre quase todos os itens, estão lá os itens importantes, mas estão muito superficiais, não entra em nenhum nível de detalhe. E um segundo aspecto, que acho o mais relevante, é quando saiu esse plano, muito atrasado. Depois desse plano nacional, nós temos que construir os planos estaduais e os planos municipais, coisa que já podia estar bem adiantada e feita.


O fato de o documento sair somente agora, com um nível de detalhamento ainda muito superficial, dificulta bastante para os estados e municípios organizarem todos os detalhes necessários para que essa campanha se efetive. E a gente vê justamente nesse cenário, como esse documento é superficial, que não se pensou, por exemplo, na questão das seringas no momento certo. O plano não chega a níveis de detalhe que permita mapear o processo e saber quais recursos eu vou precisar para fazer essa campanha com sucesso.



Equipe ADUnB - Qual a necessidade de uma estratégia coletiva e nacional para a vacinação?


A vantagem da gente ter um plano nacional de vacinação, uma estratégia coletiva, tem dois aspectos importantes. Um deles é a capacidade de negociação, que dizer, um país com

200 milhões de habitantes tem condições de sentar em uma mesa de negociação com as grandes indústrias e poder baratear o custo e conseguir transferir a tecnologia para o país, para que a gente tenha acesso à tecnologia e não só resolva o problema para a nossa população.


O fato que o Brasil tem um parque tecnológico muito avançado pode ajudar a produzir e a distribuir essa vacina para os países que ainda não têm acesso. Tem muitos países que não têm acesso à vacina e que vão precisar de apoio. O Brasil poderia ter um papel fundamental no que diz respeito à América do Sul e países de língua portuguesa. Então, esses fazem parte de um aspecto: a questão tecnológica e a mesa de negociação de preço.


O outro aspecto é que nós queremos atingir a imunidade de rebanho o mais rápido possível. Conseguir cobrir todo o território nacional com a vacinação é muito importante porque, se eu vacinar uma população, por exemplo, e outra não, o vírus vai continuar entrando no outro estado e causando mortes e casos na outra população. Eu preciso ir eliminando o vírus e baixando a transmissão praticamente em todo o território nacional. Cada país cuidando de seu território para que se consiga no mundo eliminar a transmissão do vírus ou, enfim, baixa-la a um nível que não possa representar um problema de saúde pública


Equipe ADUnB - Por que vacina para todos? A compra da vacina pela iniciativa privada pode atrapalhar, de alguma forma, a vacinação para todos e todas?


A discussão é uma questão de ética. A saúde, em nosso país, é um direito, está em nossa constituição. Então, não existe nenhum amparo constitucional que nos permita dizer porque um cidadão que tem dinheiro tem mais direito a ter a vacina do que um cidadão que não tem dinheiro.


Como comparar um cidadão que tem dinheiro com uma pessoa do grupo de risco que não tem dinheiro? Será que essa pessoa do grupo de risco que não tem dinheiro não deveria ser priorizada em uma vacinação em detrimento de uma pessoa que tem dinheiro? Essa é uma questão ética que está se debatendo muito nesses dias. E é por isso que a gente constituiu o sistema público de saúde, essas são as bases do nosso sistema público de saúde, universal e equitativo. Ele busca justamente atender a quem mais precisa, dar prioridade, usar critérios epidemiológicos e éticos para priorizar grupos mais vulneráveis. Então, por isso, a gente deve priorizar esses grupos de risco.


E por isso a gente não deveria, em um cenário onde não há produção de vacina mundial suficiente, deixar que o capital interfira no acesso. Daqui a alguns anos, talvez tenhamos vacina para todos, e aí não tem problema que a iniciativa privada compre vacina e ofereça para a sua clientela, depois que se garantiu o acesso a todos. É diferente de um cenário onde eu não tenho vacina suficiente e o capital começa a interferir no acesso. Quem tem dinheiro, tem mais acesso do que aquele que não tem dinheiro. Esse não pode ser um critério de equidade para o nosso sistema de saúde e para nossa constituição.


Crédito da foto: Divulgação SDS

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