Não basta não sermos racistas, sejamos antirracistas!

Artigo do professor Nelson Fernando Inocencio da Silva


Professor Nelson Inocencio. Foto:Marcelo Camargo/Agência Brasil

A frase que intitula este breve texto, atribuída à intelectual e ativista afro-estadunidense Angela Yvonne Davis, nos remete à sérias reflexões e tem muito a ver conosco, docentes das universidades públicas deste país. Em outros termos, podemos afirmar que a postura tímida, moderada, quase silenciosa diante da catástrofe que é a violência racial, nos torna cúmplices do crime que cotidianamente se repete diante de nossos olhos. Em contrapartida é preciso ousar, colocando em xeque algumas de nossas certezas. No caso da categoria docente, em particular, isto está relacionado à produção do conhecimento. Não é de hoje, diga-se de passagem, que o debate sobre o caráter eurocêntrico dos currículos acadêmicos está posto. Nos anos 90 a discussão provocada pelo multiculturalismo já situava o problema da formação acadêmica pautada na exclusão dos saberes não ocidentais. Os Estudos Culturais também nos alertaram para esta questão enfatizando a importância das contra-hegemonias. Nos últimos tempos a emergência dos Estudos Pós-Coloniais e dos Estudos da Decolonialidade reestabeleceram a discussão sob um outro olhar. Todavia, de que adianta o histórico de certas vertentes intelectuais que buscam provocar a universidade se não nos sentimos verdadeiramente instigados, sensíveis às problematizações apresentadas? Quantos de nós estamos dispostos a trabalhar persistentemente na ressignificação dos modos de produção do conhecimento?


Talvez várias e vários colegas que constituem a categoria não tenham atentado para o impacto da formação pautada na conexão de saberes de diferentes povos que compõem a sociedade brasileira, em prol do pluralismo salutar à democracia. Vale destacar que o racismo resulta da ignorância e do menosprezo manifesto em relação à determinada alteridade. Assim sendo, as violências simbólicas ou físicas estabelecidas contra a população negra, via de regra, partem da pressuposta insignificância desse segmento no que se refere ao desenvolvimento da humanidade. Não basta percebermos o equívoco que tais atos representam. É fundamental que consigamos produzir o antídoto para anular este veneno que debilita o corpo social.


Meditar sobre práticas pedagógicas, refletir acerca do compromisso acadêmico no que diz respeito a este assunto, tornou-se emergencial. Pensemos, por um momento, nas mudanças substantivas que poderiam ter ocorrido a partir da implementação da Lei Federal l0.639/ 2003, que impõe a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica, além da Lei Federal 11.645/ 2008, que amplia a primeira incluindo conteúdos sobre história e cultura indígenas. Ambas alteraram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mas o impacto nos cursos de licenciatura das universidade públicas foi e continua sendo pouco expressivo, apesar das demandas.


A UnB possui algumas disciplinas em listas de oferta, tais como Cultura, poder e relações raciais, alocada no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, Neab/ CEAM, Pensamento Negro Contemporâneo e Cinema Negro, ambas constantes na oferta do Decanato de Extensão, Educação para as relações étnico-raciais, na Faculdade de Educação, Filosofias Africanas no Departamento de Filosofia, Estudos das visualidades afro-brasileiras e Estudos das visualidades indígenas no Departamento de Artes Visuais, entre outras. Com raríssimas exceções, essas disciplinas são ofertadas na condição de módulos livres ou optativas. Ainda não dispomos de uma disciplina de serviço obrigatória que atenda a todos os cursos de graduação.


Como se esta limitação não fosse o bastante em termos de prejuízo, alunas e alunos brancos estão há anos fraudando a política de cotas raciais, uma vez que as bancas de verificação, perversamente rotuladas de tribunal racial, foram abolidas dos nossos vestibulares, passando a valer única e exclusivamente a autodeclaração. O tamanho do dano é incomensurável, desproporcional à reação da comunidade acadêmica. O quanto tudo isso nos incomoda e, de fato, nos tira da zona de conforto?


Uma conduta abertamente antirracista não será condescendente com tais situações. Ao invés do silêncio a balbúrdia em defesa de uma universidade que acolha as populações negras e indígenas e se disponha a aprender com os saberes produzidos por esses povos. A participação plural precisa ser dar em todos os níveis, começando pelo acesso, sem ignorar a trincheira que representam os currículos eurocentrados. Ações específicas estão em curso como o trabalho do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para a Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa – INCTI/ UnB. Contudo, há que se pensar em uma perspectiva macro que comprometa a gestão da universidade, para que o corpo docente, o corpo discente e o corpo técnico-administrativo estejam qualificados e sejam capazes de enfrentar o racismo institucional, que muitas e muitos ainda não conseguem enxergar. Em síntese, o projeto de uma universidade pública, democrática de qualidade e gratuita, exige como um dos seus pilares éticos o posicionamento coletivo e explícito pautado no antirracismo. Isto é um chamamento!


Nelson Fernando Inocencio da Silva (VIS/ IdA, Neab/ CEAM)

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