MEC para iniciantes - ou, carta para Milton Ribeiro

Na última segunda-feira (9), em entrevista ao programa Sem Censura, o terceiro inquilino a ocupar o MEC, o ministro pastor Milton Ribeiro, uma vez mais manifestou-se de forma ultrajante à Educação, à Ciência e aos trabalhadores destas classes.

Nada que, comungando do temor que governos totalitários têm pelo conhecimento, seus antecessores não tenham feito igual, até plagiou uma falácia proferida pelo primeiro titular do MEC sob Bolsonaro, Ricardo Vélez, ao citar o ensino profissionalizante alemão como modelo para o Brasil e defender a universidade para poucos, já que não vê sentido em um advogado virar motorista de Über (sic). Mas Ribeiro cometeu um providencial deslize: admitir que não conhece todas as atribuições da pasta que comanda – e, pelo teor de suas declarações na entrevista, provou que desconhece bem mais do que imagina.

Algumas informações básicas para o ministro pastor do governo Bolsonaro:


Primeiro, no Brasil, as Instituições de Ensino Superior (IES) já são poucas. Conforme recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2018, 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos tinham ensino superior completo, bem abaixo, portanto, dos 45% que têm acesso à universidade em países que Ribeiro acha, e apenas acha, que são modelares para o Brasil.


Na Alemanha citada pelo ministro, o acesso ao ensino superior não ultrapassa 39% da população na mesma faixa etária, e se o ensino profissionalizante, lá, garante a devida dignidade a quem o tem, é porque, ao contrário daqui, sob a gestão de Ribeiro, sem uma política específica definida para o segmento, as matrículas estão paralisadas, o que desagrada até o setor privado, que mais lucra com o ensino profissionalizante no país, o que Ribeiro ou desconhece ou, mais provável, preferiu esquecer de dizer, que a destruição de estatais é uma política tão cara, literalmente, ao governo a que serve.


Já no ensino superior, os dados de acesso são deploráveis até no setor privado, responsável por ¾ das matrículas no segmento no país: conforme pesquisa da Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (Semesp), do MEC, em 2021, houve queda de 9% no número de estudantes em cursos particulares, em função da severa redução do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) pelo governo Bolsonaro.

Sem desenvolvimento econômico, não há mercado, emprego, renda e dignidade para quem cursa ensino superior ou ensino profissionalizante.


Questionar a importância das universidades federais há muito deixou de revelar apenas um investimento na ignorância como garantia de sustentação de um governo sem projeto, passou a ser, sobretudo, ingratidão para com os profissionais que, com pesquisas e conhecimento, impediram que a população sofresse ainda mais com um governo considerado o pior do mundo no enfrentamento da pandemia da covid-19.


Quanto ao viés político “esquerdista” que Milton Ribeiro acusou existir entre reitores/as, faltou dizer, primeiro, que boa parte são interventores indicados pelo seu presidente, desprezando as listas tríplices, por fim, e principal, que pior do que viés político nas reitorias é ter um governo negacionista, como comprovam os números de mortos e infectados pelo novo coronavírus por falta de vacina.


Por fim, e mais importante: a universidade pública é paga pelo povo brasileiro. O acesso a ela não é favor, “gasto”, tampouco inútil. É direito. De todos e todas.


Diretoria da ADUnB