Confira o discurso do professor Cláudio Lorenzo na sessão solene da Câmara em defesa da UnB

Atualizado: 19 de Jun de 2019



Deputados da bancada do Distrito Federal promoveram no dia 7 de junho, na Câmara dos Deputados, uma sessão solene em homenagem à Universidade de Brasília (UnB) e ao Instituto Federal de Brasília (IFB).


Os cortes nos orçamentos das universidades federais foram duramente criticados na solenidade.“Este novo governo, que já nasceu caduco, está usando a máquina burocrática para acabar com tudo isso, para destruir as universidades e institutos federais sob a falaciosa justificativa de necessidade econômica”, afirmou Claudio Lorenzo, diretor da ADUnB.


Estiveram na cerimônia a reitora da UnB, Márcia Abrahão Moura; o ex-reitor Antônio Ibañez Ruiz; representantes do Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub), do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Honestino Guimarães; da União Nacional dos Estudantes (UNE); além de professores, técnicos e estudantes.


Senhores e Senhoras parlamentares, meus colegas professores e professoras, estudantes e técnicos-administrativos, membros de minha comunidade, todas e todos presentes.


Eu gostaria inicialmente de agradecer à bancada federal do DF pela abertura dessa sessão.

Eu tenho a honrosa missão de falar aqui em nome dos professores e professoras da Universidade de Brasília. Nós somos muitos e muito diversos. Politicamente, falo em nome de sociais democratas, de socialistas reformistas, de anarquistas, de comunistas modernos e ortodoxos, e de liberais que sinceramente acreditam ser possível um Estado liberal socialmente responsável, democrático e de direito. Também falo em nome de muitos colegas que não se definem politicamente e que não acham que isso tenha a menor importância. Eu só não falo em nome daqueles que flertam com o fascismo, pois quem fala em nome deles é o atual governo brasileiro.


Sinto-me legitimado em falar em nome desses professores e professoras, não pela formalidade de ser um diretor democraticamente eleito para nossa seção sindical, mas por partilharmos sentimentos e emoções que só a carreira de professor oferece e que estabelece em nós profundas marcas de identidade. A primeira delas: o amor pelo conhecimento, a excitação de seguir o rastro de uma idéia, como dizia Riobaldo, do Grande Guimarães. O amor pela pesquisa, pela descoberta, e, sobretudo, o amor pela transmissão do conhecimento, essa bela estrada de mão dupla onde circulam ideias, e que um samba de roda da minha terra, a Bahia, ilustra muito bem quando canta: " ...quanto mais a gente ensina, mais aprende o que ensinou...".


Partilhamos o orgulho em poder sentir tão próximo de nós a potência do saber para o crescimento humano, a satisfação generosa em perceber que a sala de aula de uma universidade pode se tornar um novo espaço de respeito e acolhimento a uma adolescente transexual que só teve até então uma vida marcada pelo sofrimento da culpa e da recusa; a realização intelectual em ver um jovem pesquisador no doutorado, encontrar, sob sua orientação, uma importante e original solução para um antigo problema; a ternura que vem do abraço de uma mãe de estudante em dia de formatura quando te agradece no ouvido e te conta que sua filha é a primeira membro da família a alcançar o nível superior; a alegria de visitar uma terra indígena na companhia de um aluno de medicina, filho daquele povo, que enquanto caminha entre a pobreza material de sua gente, te enriquece com histórias de seu povo, de seus ancestrais, de seus deuses, experiências que nossa atuação em ensino, pesquisa e extensão nos permitem viver.


Este novo governo, que já nasceu caduco, está usando a máquina burocrática para acabar com tudo isso, para destruir as universidades e institutos federais sob a falaciosa justificativa de necessidade econômica. O obscurantismo é próprio da brutalidade. É próprio da subserviência daqueles que se dizem patriotas, mas tramam contra a soberania nacional; batem continência para bandeira alheia; acabam com as normas de proteção às nossas florestas; fecham os olhos ao extermínio de nossas comunidades tradicionais e de nossa juventude negra nas periferias, e o estimula, facilitando o acesso a armas de fogo; vendem barato nossos minérios; permitem que envenenem nosso solo; colocam nossos artistas, tradutores maiores da nossa cultura, em lugar de marginalidade; fomentam as condições sociais para a exploração do trabalho de nossa gente; estimulam o ódio racial, a misoginia, a homofobia; deixam a educação de nossa juventude entregue à própria sorte; e enfim, abrigam-se sob o guarda chuva do cinismo e dali desdenham dos direitos humanos.

A resistência contra o fim da educação pública e gratuita vai ser grande Sr. Ministro da Educação, Sr. Capitão, Presidente da República, e causará ao governo de vocês um grande desgaste. Outros, mais inteligentes e mais hábeis politicamente que vocês, já tentaram antes, mas a sociedade brasileira sempre nos dará a mão nessa luta, e sempre sairemos vencedores. "Vocês nos prendem vivos, nós escapamos mortos". Pairam sobre nossas cabeças os espíritos de Darcy Ribeiro, de Nise da Silveira, de Milton Santos, de Sérgio Arouca, de Bertha Lutz, de Anísio Teixeira, de Laudelina Campos de Melo, e sim, do nosso patrono da Educação Paulo Freire. Estão conosco todos os ancestrais da multiplicidade de povos que construíram a nação brasileira, todos os deuses indígenas, santos e orixás, Tupã, Ceuci, Nhanderu, São Francisco de Assis, Santa Rita de Cássia, Jesus Cristo, Oxalá, Yansã e Ogum. Nós vamos a luta, Sr. Ministro e Sr. Capitão. EPA BABÁ! EH PARRÊ! OGUN YÊ!

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