A fila do sacrifício

Atualizado: Jun 4

O Presidente da República disse, em reunião recente com governadores, que vetaria o texto aprovado no Congresso e com isso congelaria o salário dos servidores públicos (federais, estaduais e municipais) até 2021. Justificou que tal atitude seria a cota de sacrifício dos servidores diante da crise econômica.

Apesar de usarmos de forma corriqueira a palavra “sacrifício”, na língua portuguesa a palavra tem o sentido de "privação, voluntária ou forçada, de um bem ou de um direito". No sentido original, o sacrifício sempre esteve ligado a oferenda a uma divindade. Sou paraense, e meu povo é devoto de Nossa Senhora de Nazaré. E no mês de outubro mais de dois milhões de fiéis caminham pelas ruas de Belém, muitos carregando oferendas ou fazendo verdadeiros sacrifícios (como andar seis quilômetros de joelhos num sol escaldante e no meio de uma multidão). O sacrifício está associado ao pagamento de uma graça alcançada (uma cura, por exemplo).

O Brasil já passou por várias crises econômicas e parte delas foi sempre a queda da arrecadação de tributos, especialmente porque o Estado Brasileiro depende de tributos vinculados ao consumo. Nenhuma delas foi culpa dos servidores públicos. A atual, provocada pela necessidade de isolamento social contra um vírus que não tem ainda vacina ou remédio eficaz, provoca a paralisia de muitas atividades econômicas, impede a circulação de pessoas e provoca, por conseguinte, queda na arrecadação.

Fica a pergunta, se não foram os servidores públicos que provocaram a pandemia e muito menos a crise econômica que a doença provocou, por que estamos sendo selecionados para dar uma cota de sacrifícios, com o congelamento de salários?

Existem perguntas até mais relevantes do que essa acima. Se toda a sociedade brasileira vai ser chamada (não por uma divindade, mas pelo governo e pelo parlamento) a fazer cotas de sacrifício, essa cota não deveria envolver todos os setores, proporcional a sua capacidade de contribuir? Vejamos:

  1. A maioria dos servidores públicos ganha péssimos salários, especialmente os municipais. Em 2017 existiam 10,4 milhões de servidores públicos. Recebendo até 3 mil reais tínhamos 71% dos servidores. Na esfera municipal este percentual chegava a 86%. Alguns poderiam dizer: “mais tem gente que ganha bem, mais de 20 mil reais. É verdade, em 2017 essas pessoas somavam 1% do total dos servidores públicos.

  2. Somos o segundo país mais desigual do mundo, segundo Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2019. Os 1% mais ricos concentram 28,3% da renda total do País. Já os 10% mais ricos no Brasil concentram 41,9% da renda total. Quem deveria estar na frente da fila do sacrifício seriam os mais ricos e não os servidores públicos. Taxar as grandes fortunas seria muito mais justo do que congelar salários de servidores públicos.

Talvez o problema todo seja que nas notícias que recebemos sempre está oculto o deus (com letra minúscula) a quem devemos oferecer o nosso sacrifício. Esse “deus” responde pelo nome de mercado, dizem que tem mãos invisíveis. Não sei se é verdade, mas seus representantes terrenos são muito ricos, normalmente banqueiros e grandes industriais, na maioria estrangeiros. E conseguem eleger presidentes, governadores, mesmo que o financiamento privado de campanha esteja proibido. E mais, sempre indicam um sacerdote fiel para ocupar o Ministério da Economia, mesmo em governos de esquerda. É um “deus” muito poderoso. E é fiel aos seus sacerdotes, nunca os sacrifícios alcançam essa verdadeira casta que nos governa. E a casta protege o 1% mais rico.

Fica a pergunta: não seria profunda heresia continuar adorando a este “deus”? E continuar aceitando ser vítimas dos sacrifícios decididos por seus sacerdotes?

Por isso, é profundamente acertada a pressão que o nosso sindicato nacional (ANDES-SN) e a seção sindical local (ADUnB) fazem para impedir que o veto se consolide. Os parlamentares podem ter sido (na maioria) financiados pelos sacerdotes do mercado, mas o voto no Brasil não tem CNPJ, quem vota somos nós, portadores de CPF. Quem elegeu cada parlamentar foi o povo que compõe os 99% que estão na parte de baixo da pirâmide social, inclusive milhões de servidores públicos.


Luiz Araujo Professor Doutor - PAD/Faculdade de Educação 

Links Úteis

Assessoria de Comunicação

De 9h às 18h, de segunda à sexta-feira.

acs@adunb.org.br

(61) 98280 0418