200 mil vidas que se foram: queremos vacina para todos e todas, já!

Atualizado: há 5 dias

A ADUnB lamenta profundamente a morte das milhares de vidas levadas pela Covid-19 e apoia a luta pela #vacinaparatodos e o fortalecimento do SUS. A inércia do Governo Federal só agrava, a cada dia, a pandemia. Veja entrevistas com epidemiologistas da UnB.



Já são 200.163 óbitos no Brasil causados pela Covid-19. No Distrito Federal, que está em curva de crescimento, foram 4.337 familiares, amigos, seres humanos que perderam suas vidas, com informações coletadas nesta quinta (7). Enquanto isso, o governo Bolsonaro não consegue elaborar e executar um plano nacional de vacinação para a Covid-19 - nem mesmo as ações iniciais básicas. (Dados do Consórcio de Análise da Imprensa).


No oitavo dia de janeiro, não temos a previsão de compra de seringas, não temos agulhas, não temos vacinas (nem mesmo a aprovação do uso pela Anvisa) e assistimos milhares de pessoas sendo imunizadas pelo mundo.


A ADUnB reafirma seu compromisso em defesa do serviço de saúde público, gratuito e de qualidade para a população, com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) como política pública. É obrigação do Governo Federal coordenar e executar um plano factível e funcional, com uma estratégia pactuada entre os três gestores do SUS para interromper a cadeia de transmissão desse vírus que já causou milhares de mortes.


Neste terrível dia, mais um, seguimos apoiando a luta pela vacinação a todos(as) brasileiros(as) ao trazer o ponto de vista de professores epidemiologistas da Universidade de Brasília, Wildo Navegantes de Araújo e Jonas Brant, que têm atuado firmemente no front contra a pandemia. Eles falam sobre o plano nacional de vacinação, a inércia e inépcia do governo brasileiro, além da iniciativa de compra das vacinas pelo setor privado, no início desta semana.


Selecionamos algumas respostas aqui, clique nos links para ler as entrevistas completas.



Wildo Navegantes de Araújo, professor de epidemiologia da UnB


Leia abaixo a conversa com o professor de epidemiologia da UnB, Wildo Navegantes de Araújo. Leia a entrevista completa aqui.


Equipe ADUnB - Como você vê essa corrida da rede privada no Brasil para a compra da vacina?


Wildo Araújo - Isso só está acontecendo pela inépcia do governo, se o governo tivesse capitaneado essa ação, não haveria interesse pela rede privada para vender um produto que está com alta procura comercial.



O Governo Federal, por comprar milhões de doses, consegue um preço em escala muito baixo, além do que, por ter laboratórios públicos que produzem a vacina, permite ter um preço absurdamente baixo que as empresas privadas não conseguem competir! Se o governo federal atuasse corretamente, sequer o empresariado iria se preocupar em entrar no mercado específico da vacina para a Covid-19.


Apenas uma estratégia coletiva de vacinação terá sucesso na imunização da população diretamente pactuada com as três esferas de gestão do SUS, incluindo a participação social. Se o governo federal atuasse corretamente, sequer o empresariado iria se preocupar em entrar no mercado específico da vacina para a Covid-19.


Equipe ADUnB - Por que vacina para todos?


Wildo Araújo - A ideia de termos vacinas para todos passa por vários motivos. Quanto mais pessoas vacinadas, menos alguém com o coronavírus poderá passar para outras pessoas suscetíveis. Assim, muita gente vacinada favorece com que tenhamos o que chamamos de imunidade coletiva;


A oferta de vacinas para todos é uma das políticas públicas mais equânimes que existem no Sistema Único de Saúde, por mais que vivamos em um dos países com maior desigualdade social do mundo.


Historicamente, há mais de 40 anos, é papel do Ministério da Saúde definir a política nacional de imunização, mas atualmente neste governo a doença não tem sido tratada como prioridade de saúde pública, assim como o plano nacional de vacinas.


Um plano nacional de imunização é estratégico pois endereça as forças voltadas à oferta de uma vacina, no caso da Covid-19, pois no plano constam vários eixos de atuação. Desde as questões de comunicação de risco sobre a importância da vacina, mesmo que ela ainda não existisse, até depois da administração das vacinas nas pessoas, ou mesmo o monitoramento de possíveis novos vírus que advenham depois que esta cepa pandêmica seja suprimida com a vacinação, e os outros esforços de controle.


A capacidade de vacinar em pouco tempo mais de 200 milhões de pessoas está na oferta de número de doses para o total da população, por isso é necessário o estabelecimento de grupos prioritários no Brasil e no mundo.


Contudo, como o Brasil está atrasado em todo o seu planejamento de resposta à pandemia, incluindo as vacinas. Eu não acredito que consigamos oferecer vacinas para todos em menos de um ano, pelo menos com as notícias que dispomos sobre a capacidade de entrega das instituições produtoras de vacinas para Covid-19 hoje aprovadas em órgãos de fiscalização e controle na área de saúde, como as agências europeias, britânicas ou americana, ou aquelas da latino-américa com o parque de vacinas que dispomos neste momento.


Jonas Brant - professor e epidemiologista da sala de situação da UnB.


Leia a entrevista completa com Jonas Brant aqui.


Equipe ADUnB - Qual foi a sua avaliação do plano nacional de vacinação apresentado pelo governo?


Jonas Brant - São dois aspectos que temos que levar em consideração. É um plano muito pouco detalhado, então ele fala de quase todos os itens, estão lá os itens importantes, mas eles estão muito superficiais. Ele não entra em nenhum nível de detalhe. E um segundo aspecto que acho que é o mais relevante é quando saiu esse plano, muito atrasado. Então, ainda depois desse Plano Nacional, nós temos que construir os Planos Estaduais e os Planos Municipais, coisa que já podia estar bem adiantada e feita. Então o fato desse documento sair somente agora, com um nível de detalhamento ainda muito superficial, dificulta bastante para os Estados e municípios organizarem todos os detalhes necessários para que essa campanha se efetive. E a gente vê justamente nesse cenário como esse documento é superficial. Não se pensou, por exemplo, na questão das seringas no momento certo. Então esse é o desafio, o governo federal tem que conseguir antever os problemas, são coisas claras, quero dizer, para fazer a vacinação eu tenho que comprar seringa. O plano não chega a níveis de detalhe que permita mapear o processo e saber quais recursos eu vou precisar para fazer essa campanha com sucesso.



Equipe ADUnB - Por que vacina para todos? A compra da vacina pela iniciativa privada pode atrapalhar, de alguma forma, a vacinação para todos e todas?


Jonas Brant - A discussão é uma questão de ética. A saúde no nosso país é um direito, está em nossa constituição. Então, não existe nenhum amparo constitucional que nos permita dizer porque um cidadão que tem dinheiro tem mais direito a ter a vacina do que um cidadão que não tem dinheiro.


Então, como comparar um cidadão que tem dinheiro com uma pessoa do grupo de risco que não tem dinheiro? Será que essa pessoa do grupo de risco que não tem dinheiro não deveria ser priorizada em uma vacinação em detrimento de uma pessoa que tem dinheiro? Essa é uma questão ética que está se debatendo muito esses dias e que é por isso que a gente constituiu o sistema público de saúde. Essas são as bases do nosso sistema público de saúde, universal e equitativo. Ele busca justamente atender a quem mais precisa, dar prioridade, usar critérios epidemiológicos e éticos para priorizar grupos mais vulneráveis. Então, por isso, a gente deve priorizar esses grupos de risco.


E por isso a gente não deveria, em um cenário onde não há produção de vacina mundial suficiente, deixar que o capital interfira no acesso. Daqui a alguns anos, talvez tenhamos vacina para todos, e aí não tem problema que a iniciativa privada compre vacina e ofereça para a sua clientela, depois que se garantiu o acesso a todos. É diferente de um cenário onde eu não tenho vacina suficiente e o capital começa a interferir no acesso. Quem tem dinheiro tem mais acesso do que quem não tem dinheiro. E esse não pode ser um critério de equidade para o nosso sistema de saúde e para nossa constituição.


Crédito da foto Jonas Brant: Divulgação SDS


Brasília, 8 de janeiro de 2020

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