ADUnB


Conlutas

Informativo eletrônico da ADUnB
Brasília
4 de junho de 2008
Nº 52

 


Voto paritário e a disputa pelo poder

Um relato das idéias discutidas no debate sobre paridade,
realizado pela ADUnB, DCE e Sintfub, como parte da campanha Paridade Já!

No dia 21/5, mais de 100 pessoas, entre estudantes, funcionários e docentes, participaram de um debate sobre eleição paritária. Parte das atividades da campanha Paridade Já e de uma agenda conjunta das entidades representativas dos três segmentos da universidade, o debate contou com a participação do professor Carlos Roberto Pio da Costa Filho, do IREL/UnB, que fez uma exposição contrária ao voto paritário, e do professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e secretário geral do ANDES-SN, Luis Henrique Schuch, que apresentou argumentos favoráveis.

O tema é polêmico e faz parte do debate nacional sobre autonomia, entendida como uma condição de existência da própria universidade e consagrada no artigo 207 da Constituição brasileira, que determina que as universidades tenham autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial. Atualmente, nas universidades federais, a eleição é feita por consulta a professores, estudantes e funcionários. Os três nomes mais votados são enviados ao presidente da República, que nem sempre escolhe aquele que obteve maior número de votos.

Na UnB, desde a adoção do voto misto, instituído pela Lei nº 9.192/95 (Lei Paulo Renato), durante o governo Fernando Henrique Cardoso, em que o voto dos professores tem o peso de 70%, completados pelos 15% referentes aos servidores técnico-administrativos e 15% aos estudantes, o assunto é tema de grandes discussões sobre o voto paritário, universal ou misto. No voto paritário, professores, estudantes e técnico-administrativos têm o peso de 1/3 cada e, no voto universal, os estudantes têm peso maior, uma vez que os critérios adotados são meramente quantitativos, sendo escolhido o candidato que tiver o maior número de votos.

No debate, os discursos favoráveis e contrários à paridade demonstraram que, ao discutir o método de eleição para dirigente, o que está em jogo é o poder dentro da universidade.

 

O papel democrático da universidade

O professor da Universidade Federal de Pelotas e secretário geral do ANDES-SN, Luis Henrique Schuch, considera que o voto universal para eleição de reitor é inadequado porque pressupõe uma revolução no conceito e na prática da organização da sociedade e o entendimento de que ela deve ser estruturada de forma horizontal. Contrário ao voto misto, ele diz que o modelo mais adequado para se eleger reitor é o paritário porque além de distribuir o poder e as responsabilidades igualitariamente, institui uma permanente discussão sobre o futuro da universidade e define qual a melhor maneira de legitimar a sua liderança.

Luis Henrique Schuch avalia que a rejeição ao voto paritário por alguns setores da comunidade acadêmica reflete a disputa pelo poder existente na universidade porque, na prática, “está-se discutindo a delegação, a legitimação para a direção dentro de um processo intrínseco de disputa de poder”, afirma. Por isso, segundo ele, há argumentos contrários que prevêem uma espécie de acautelamento por parte dos docentes, baseados em conceitos principiológicos, que explicam a defesa do modelo que confere o maior peso percentual aos professores, com a justificativa de que esses são os responsáveis pelo cumprimento das atividades da universidade, de ensino, pesquisa e extensão.

Conquista histórica – Ele explica que o artigo 207 não aparece gratuitamente na Carta Magna e que o artigo constitucional é uma conquista histórica, que não é só brasileira, de algumas características que devem embasar uma instituição universitária. “A idéia, por exemplo, da direção colegiada nas instituições universitárias é anterior mesmo à construção republicana na constituição dos poderes executivo, legislativo, judiciário”, destacou.

No debate, ele lembrou que “as lutas pela definição de um paradigma para a universidade no mundo, as lutas em Berlim, as lutas na América Latina, há 100 anos, em Córdoba, apontaram elementos da gestão democrática, da autonomia universitária que vemos agora consagrados na Constituição brasileira com todas os condicionantes do momento histórico em que se viveu o momento Constituinte”, disse.

Do ponto de vista do ANDES-SN, “a autonomia universitária deve ser entendida como uma delegação constitucional de autogestão e de autonormação à instituição universitária e, em decorrência da premissa de autogestão e autonormação, existe a discussão do papel democrático da universidade. Gostaria de deixar bem sinalizado que a escolha de dirigentes não resume o papel democrático da universidade. O ANDES-SN tem feito exaustivamente essa discussão e tem constatado que nem sequer a democracia no ingresso dos estudantes resume o papel democrático que uma instituição universitária deve cumprir. Existem, no conjunto, outros elementos até mesmo a própria relação da sociedade, da natureza do que se ensina e do que se pesquisa dentro de uma universidade”, explica.

O ANDES-SN, segundo ele, formulou sua defesa sobre voto paritário com base na “experiência desenvolvida nacionalmente, com referenciais históricos, com olhar de futuro, que leva em consideração razões que podem justificar a escolha do método do processo, e não é derivada de uma questão principiológica, ao contrário, o que temos percebido nesses debates é que muitas vezes a dinâmica da retórica, buscando argumento em questões e fundamentos principiológicos, resulta em uma espécie de desconhecimento das verdadeiras questões que estão envolvidas e essencialmente nesse processo: está-se discutindo o poder”, argumenta.

“Não estamos diante de um espaço lírico de reflexão sobre o saber, sobre o conhecimento, e sim diante de um processo social histórico de relação de pessoas, numa sociedade real com um passado e voltado para o futuro. E é desse jeito, considerando que estamos diante dessa perspectiva, que se vai construir, no debate, na vida universitária, nas relações que se estabelece dentro da instituição universitária, o melhor método, o melhor caminho a cada momento”, afirma o professor da UFPel.

Posição do ANDES-SN – Em virtude desse entendimento, o ANDES-SN não tem uma posição fechada sobre a escolha de dirigente. “É o estado da autonomia universitária, num processo de eleição direta, que envolva toda a comunidade universitária em métodos paritários, que estabelecerá a cada momento, segundo o produto, a síntese que a própria universidade conseguir fazer em si mesma, o melhor método de escolha em processo simbólico na universidade. Por isso rechaçamos, por princípio, as listas sêxtuplas, as listas tríplices e outras listas com qualquer que seja o número, uma vez que, no final, elas passam o condão da escolha para cima”, afirma o secretário geral do ANDES-SN.

Schuch explicou ainda que a legitimação do dirigente universitário deve ocorrer de baixo para cima e não de fora para dentro, uma vez que a produção de conhecimento é uma questão muito delicada: “Na década de 1990, no mesmo período em que se concluía o processo de democratização nas universidades, concluía-se, também, uma discussão mundial a respeito do direito ao segredo. Participei intimamente da Rodada do Uruguai do GATT, quando o G-8 impôs a todos os países do mundo a lei das patentes, a lei das cultivares, que é um jeito muito pragmático de lidar com o conhecimento, com a ciência, com a pesquisa, com os pesquisadores, com as instituições que pesquisam; é um jeito muito pragmático, é o jeito de ganhar dinheiro. Por isso temos de ter clareza quando discutimos o futuro da universidade, da instituição, para onde vai a universidade e qual é a melhor maneira de legitimar a sua liderança, a sua direção. Temos de dar respostas”, adverte.

O método é pedagógico – Ele afirma que a comunidade universitária deve levar em consideração que o método com que as coisas são feitas na universidade tem de ser pedagógico e, para isso, a academia deve respeitar as opiniões divergentes e, em vez de reprimi-las, deve estimulá-las. Para ilustrar seu pensamento, Schuch contou que uma estudante da Universidade Federal do ABC e militante do movimento estudantil foi repreendida pela direção da universidade porque, numa nota à comunidade, divergiu de um encaminhamento da administração.

“Ora, se a universidade não for o lugar que estimule a divergência, as posições que floresçam, que venham para uma nova verdade no dia seguinte, ela tem de tirar da sua fachada a palavra universidade. Assim ocorre com o processo de escolha de dirigentes: tem de ser eminentemente pedagógico para construção dos indivíduos e da própria instituição, para construção dos métodos da relação da universidade com o meio lá fora e para a construção do futuro”, argumentou.

Para o professor, a comunidade universitária da UnB não pode “abrir mão de discutir qual a metodologia, em que tempo, em que processo, coordenado por quem, que amplie o espaço de debates para todas as posições, para todas as visões, para todos os pontos e perspectivas e olhares da realidade da UnB que apareçam no processo. Portanto, a princípio já me pareceria inconveniente, olhando de fora, a perspectiva da lei, por exemplo”, explica o professor.

Segundo ele, a instituição universitária, especialmente conforme o processo social e histórico da América Latina hoje, tem uma definição prévia de objeto em que o método científico seja algo cristalizado, definido como um paradigma imutável e que a partir dele possa se estruturar relações sociais e humanas e o papel da universidade.

 

Universidade deve buscar eficiência e eficácia

Contrário ao voto paritário, o professor do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da UnB, Carlos Roberto Pio da Costa Filho, explicou que a própria eleição de reitor é incompatível com a finalidade da instituição universitária. “Tenho um argumento muito simples, fácil de compreender, mas difícil de convencer as pessoas e as entidades aqui representadas. O argumento é o seguinte: eleger o reitor e não apenas o método de eleger, se por voto universal ou por voto paritário, eleger o reitor contraria os propósitos fundamentais da universidade”, afirma.

Para Carlos Pio, o processo eleitoral com voto universal, irrestrito, na sociedade é sem dúvida o mais adequado porque todas as questões estão em aberto e, além disso, em uma sociedade ampla, heterogênea, complexa, não há um propósito, um objetivo que tem de ser realizado. Os propósitos estão em discussão e a democracia maximiza a liberdade de as pessoas apresentarem visões alternativas sobre os propósitos que devam ser realizados.

“Numa grande sociedade existem pequenas organizações construídas para realizar objetivos específicos, tais como hospitais, aparatos de segurança, escolas, universidades. Elas têm propósitos específicos, uma tarefa a realizar, e são, em grande medida, por conta disso, fiscalizadas, controladas pela grande sociedade, não apenas pelo Estado, pelo Congresso, pelo Judiciário, pela imprensa, pelos movimentos sociais livres e autônomos, lógico que para maximizar os fins específicos que dão origem, sustentação, legitimidade a essas organizações é importante se discutir os métodos de gestão, de escolha e de substituição de seus dirigentes”, explica.

No entanto, segundo ele, diferentemente da grande sociedade, as universidades que adotaram gestões baseadas em pressupostos democrático-participativos não funcionaram. “Experiências se apresentaram em vários outros lugares do mundo, no entanto, o modelo de gestão democrática, entre aspas, participativa, em que a eleição dos dirigentes e o dia-a-dia das decisões dos conselhos e dos colegiados universitários são feitos de maneira participativa e compartilhada entre professores, alunos e funcionários, jamais funcionou”, garante.

Objetivo e propósitos – Carlos Pio reconhece que a estrutura das universidades é anterior até mesmo ao estabelecimento do sistema de repartição de poderes na grande sociedade, mas se referiu ao tema, mencionado por Luis Henrique Schuch, como a razão pela qual, “historicamente, as universidades se estruturam dando muito mais peso a processos de escolha, indicação, funcionamento, prestação de contas dos dirigentes que maximizem o seu fim específico: o fim pelo qual a sociedade destina os recursos escassos para pagamento de salário, provisão de infra-estrutura, para financiamento de pesquisas e as outras atividades relevantes de ensino e de extensão”, explica.

Segundo ele, em outros lugares do mundo, as universidades têm outros propósitos que não apenas o da geração e o da difusão de conhecimento. Por isso, no entendimento do professor de economia política internacional saber para que se quer o conhecimento, que tipo de conhecimento e quem se beneficia do conhecimento é fundamental, visto que se trata, segundo ele, de uma discussão ampla e, no limite, séria.

“O que distingue o conhecimento de ser gerado daquele conhecimento que é discutido e professado por outras organizações, como, por exemplo, a Igreja, os sindicatos, as associações de interesses, é o método científico. O que distingue o conhecimento gerado pela universidade é o método científico. Então a nossa discussão é uma discussão que em certo sentido nunca deixou de existir nas comunidades universitárias: Qual é o melhor método de gestão? Qual é o melhor método de maximizar a realização dos propósitos pelos quais a grande sociedade no Brasil, na Itália, nos Estados Unidos, na União Soviética, no Japão, na Rússia atual, na Finlândia destina recursos para que pessoas sejam contratadas para produzir e difundir conhecimentos e para absorver esses conhecimentos e repassá-los a quem bem entender?”, indaga.

Ele afirma que essa questão sempre esteve presente, mas “jamais se conseguiu encontrar um modelo de gestão que tornasse os usuários e a área meio da universidade, para não dizer também os próprios professores, responsáveis pela própria redefinição da missão dos propósitos, dos objetivos, das funções, dos atributos, da organização”, argumenta.

 

Experiências positivas e negativas

Mediado pelo estudante de serviço social e coordenador do DCE, Fábio Félix, o debate resgatou experiências de gestão democrática e participativa na América Latina. O professor Luis Henrique Schuch usou exemplos desse tipo de administração ocorrido em universidades de países, como a Argentina, Uruguai e México, para ilustrar sua defesa do voto paritário. Para ele, foram experiências positivas em que alguns princípios são adotados até hoje em várias instituições e até mesmo pela Constituição brasileira.

O professor Carlos Pio, por sua vez, ao referir-se à explanação favorável ao voto paritário do professor da UFPel, em que ele citou a experiência de Córdoba, disse que houve conseqüências negativas. “Ao fazer menção ao Manifesto de Córdoba, o professor Luis Henrique não mencionou, no entanto, às conseqüências da adoção dos princípios de gestão democrática, politicamente autônoma, da Universidade de Córdoba; nem às conseqüências da expansão desse modelo para a universidade argentina, como um todo, e para a universidade latino-americana, de maneira menos intensa, mas de todo modo importante: as conseqüências foram muito negativas do ponto de vista da realização daqueles objetivos essenciais da pesquisa, do ensino, da extensão. Não há como negar”, disse.

O professor do IREL afirmou que entre as comparações feitas no âmbito do debate na UnB, há uma lista de universidades federais no Brasil que adotam o sistema de eleição paritária para reitor, mas nenhuma tem um ranking de produção e de difusão de conhecimento superiores ao da UnB. “Pior: se nós nos compararmos com as melhores universidades do mundo, nenhuma universidade no mundo tem gestão nos termos em que aqui são apresentados como democráticos e que eu reputo que não tem nada que ver com democracia. Democracia é um processo para definição dos objetivos de uma sociedade heterogênea sem fins preestabelecidos. Isso não caracteriza a universidade”, garante.

Para Carlos Pio, por um lado, “dizer que em essência os estudantes estão comprometidos com a qualidade e a eficiência do processo de geração e difusão do conhecimento é algo muito simplista”, visto que há professores que também não têm comprometimento com a universidade ao faltar à aula, ao chegar atrasado e sair cedo, ao não fazer pesquisa, dentre outros. Por outro, “dizer que os professores são inteiramente comprometidos com o fim e o propósito básico de nossa universidade, geração e difusão de conhecimento, é uma simplificação nociva à compreensão da realidade e à discussão sobre a melhor forma de gestão”, afirmou.

Segundo ele, “a gestão universitária com esse propósito, com esse imperativo de buscar formas de tornar mais eficaz, mais eficiente o processo de difusão do conhecimento precisa tomar uma série de decisões que contraria interesses de indivíduos e de corporações aqui estabelecidos que querem defender o que é indefensável.Na China existe o movimento dos estudantes pelo direito a colar nas provas, mas isso contraria diretamente os propósitos fundamentais da universidade.O método de gestão democrática no sentido eleitoral para escolha dos reitores e o método de compartilhar as decisões colegiadas com professores, estudantes e funcionários é o que, em grande medida, prejudica todas as atividades e decisões necessárias que priorizem a qualidade, a eficácia e a eficiência necessárias para que gerem mais conhecimento de qualquer natureza”, concluiu.

Diferentemente da análise do professor Carlos Pio, Schuch não vê as experiências de gestão democrática em várias universidades da América Latina de forma negativa. “Quero protestar contra a avaliação muito negativa do resultado das experiências participativas de organização de universidades latino-americanas. A universidade uruguaia dava baile em termos de programas de inserção social e resultado para o futuro. A Universidade Autônoma do México teve grande contribuição até que, pelas relações da geopolítica estratégicas do México com a fronteira norte-americana, redesenha-se na sua forma de gestão e, em primeiro lugar, achata o salário dos docentes e cria a idéia de produtividade para complementação salarial, destruindo o processo democrático. E o mesmo ocorreu na Universidade do Chile, destruída por Pinochet. Ela era referência para nós, brasileiros”, disse.

Schuch disse também que não concorda com a posição de interpretar o papel histórico da universidade brasileira e a partir daí definir métodos de escolha de dirigentes ou simplesmente gestão para melhor atingir eficiência e eficácia para discutir determinados objetivos cristalinos previamente modificáveis, tratando o estudante como usuário. “Ou estamos num processo social humano de relações e de produção do conhecimento a partir desse processo ou temos uma visão positivista, completamente endurecida, do que é o conhecimento, como pacotes” disse o professor.

Para ele, não se trata da separação de quem avalia ou de quem é avaliado: “Essa discussão foi vencida, lá na década de 1960, quando se fez a discussão sobre o diretivismo e não-diretivismo na sala de aula.Estamos aqui discutindo os rumos de uma instituição tão complexa quanto uma sociedade, que tem a sustentação da própria sociedade, conceitual, de direcionar-se ao futuro, portanto, ela é mais do que políticas de Estado no momento e muito menos dependente de políticas de governo, com toda a experiência que temos de uma relação absolutamente subalterna do governo deste País e estruturando todas as suas políticas setoriais, de saúde, de educação, de saneamento, a partir de uma opção prévia. E a opção prévia é a política econômica. É só consultar os documentos e vê como se formaliza desde o Banco Mundial até as atuais políticas de governo na América Latina: desenha-se a estratégia de política econômica macro e a partir daí, por meio dos economistas, vê-se como as políticas setoriais, a de educação, por exemplo, responde à política econômica; como que a setorial de saúde também; e assim por diante. Não é desse jeito que nós vamos construir a universidade”, disse o professor.


 

Campanha salarial

Medida provisória promove reestruturação
compulsória da carreira docente e escamoteia reajuste


No dia 14 de maio o governo federal editou a Medida Provisória 431/08, que define o valor dos salários e as carreiras do serviço público, incluindo aí a categoria docente. Numa reunião do Setor das Ifes, realizada no Rio de Janeiro, os dirigentes sindicais dos docentes das universidades federais avaliaram os impactos da MP no salário da categoria e os desdobramentos da Campanha Salarial 2007-2008. Os sindicalistas decidiram reafirmar a necessidade de continuar o movimento pela campanha salarial. Na avaliação dos docentes, por meio da medida provisória, o governo pretende impedir o movimento pela campanha salarial até 2010.
Com isso, eles decidiram denunciar as conseqüências negativas da MP 431/08, comparando com a proposta salarial do ANDES-SN e reivindicando a reabertura de negociações. Para isso, divulgaram uma avaliação inicial e, posteriormente, publicaram uma nota intitulada “MP 431/08: entre o engodo do aumento salarial e a reestruturação compulsória da carreira dos docentes”.

Confira, a seguir, a nota produzida a partir da avaliação realizada na reunião do Setor das Ifes:

MP 431/08: entre o engodo do aumento salarial
e a reestruturação compulsória da carreira dos docentes

Ao editar a Medida Provisória 431, em 14 de maio de 2008, o governo Lula dá por concluído o que denominou de um “inovador processo de negociação salarial” com 17 categorias de servidores públicos federais, dentre elas a dos professores das instituições federais de ensino.
Apoiado em um forte aparato de mídia, confunde os servidores federais e divulga para a população que concedeu significativos aumentos salariais para esses trabalhadores, tentando difundir a imagem de um governo capaz de inaugurar um sistema de negociação salarial, no qual a luta dos trabalhadores torna-se dispensável e a conciliação “por cima” apresenta-se viabilizada. No caso dos docentes, particularmente, os problemas advindos dessa estratégia governamental já haviam sido denunciados pelo ANDES-SN (ver edições especiais de abril e maio do INFORMANDES sobre a campanha salarial).
Para compreender tal “inovador processo de negociação salarial” e as questões que se apresentam para a luta imediata em defesa da categoria, é preciso que se esclareça a lógica que orientou tal processo.
Primeiro: quebrar a política unificada dos servidores em relação à campanha salarial. Para isso, o governo contou com o auxílio do neopeleguismo, que se instalou em alguns sindicatos das categorias, dificultando a ação da Coordenação Nacional das Entidades de Servidores Federais - CNESF e impondo negociações isoladas por setor. Nessas, ficou evidenciado o engodo da “negociação”, em que o governo, ao final, impôs suas propostas com o aval de seus aliados.
Segundo: exigir assinaturas de acordos dentro de prazos que inviabilizavam a discussão com as bases das categorias. Tais acordos são, na realidade, pactos que amarram as relações dos servidores com o governo, por prazos correspondentes aos períodos de uma gestão governamental, impedindo ou dificultando atualizações decorrentes de variações conjunturais.
Terceiro: conceder algumas respostas à demanda por reajustes salariais, mas condicionando-as firmemente a valores preestabelecidos, muito aquém das justas demandas dos servidores, criando uma política que foge ao reajuste linear para as categorias e intercategorias, quebrando com isso a isonomia e fragilizando ou impedindo uma reação unitária dos trabalhadores.
Quarto: criar novas carreiras, a pretexto de atender à demanda de reestruturações, sem dar tempo às necessárias análises da categoria, impondo, além disso, opções individuais de adesão. Ou seja, desloca-se a discussão sobre a conveniência de criá-las - uma questão coletiva para além de interesses corporativos -, para o espaço da conveniência pessoal, mesmo assim limitada, porque aos servidores que por ela não optarem não resta senão a alternativa de permanecerem numa carreira em extinção, com todos os prejuízos e riscos que isso representa, tais como, congelamento salarial e danos quando do ato da aposentadoria.
Quinto: quebrar a dignidade da categoria docente por meio de uma política de desvalorização salarial. Nesse sentido, basta lembrar que, ao tempo que tais ataques não se faziam presentes na intensidade dos de hoje, o salário de um professor titular, doutor, em regime de Dedicação Exclusiva era equivalente ao salário de um Ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje esse professor tem remuneração inferior a um terço da remuneração desse ministro.

PONTOS NEGATIVOS CONTIDOS NA MEDIDA PRÓVISÓRIA 431/08

O Setor dos docentes das Instituições Federais de Ensino do ANDES-SN, reunido no Rio de Janeiro, dia 15/5, antecedendo o I Seminário dos Servidores Públicos Federais da CONLUTAS, em uma análise preliminar destacou que a MP 431/08.

1. Embute, sob o mote de reajuste salarial, uma reestruturação na carreira dos docentes de nível superior e cria nova carreira para os docentes do ensino básico. Ao contrário do que defende o Movimento Docente (MD) - carreira única, institui três carreiras.
2. Escalona o reajuste salarial até 2010, a fim de escamotear que ele não recupera a defasagem salarial, decorrente de perdas acumuladas, mantendo-se muito aquém do reivindicado pelo MD. Além disso, não estabelece cláusula que assegure correção inflacionária.
3. Mantém a política de gratificações ao eliminar a GED e instituir a Gratificação Temporária para o Magistério Superior (GTMS) a partir de 14/5/08, a qual será transformada em Gratificação Específica do Magistério Superior (GEMAS) a partir de 1º/2/09.
4. Retira o percentual de titulação do vencimento básico, que será transformado em uma nova gratificação, a Remuneração por Titulação (RT), o que reforça a política de gratificações e impõe um brutal retrocesso na carreira docente.
5. Agrava a situação dos docentes do ensino básico com a exigência da assinatura de um termo de opção individual pela nova carreira.
6. Mantém a política de Vencimentos Básicos (VB) rebaixados, contradizendo a propalada disposição do governo de fortalecê-los. Exemplificando, durante todo o ano de 2008, o piso do VB dos professores continuará sendo de R$ 147,00.
7. Desrespeita o princípio da isonomia ao estabelecer valores para titulação sem critérios objetivos por meio da Gratificação Remuneração por Titulação - RT. Atualmente, por exemplo, o título de doutor representa um vencimento básico, que é 75% superior ao de graduação em todos os níveis das tabelas salariais. A partir de 1º de fevereiro de 2009, a titulação deixa de compor o vencimento, tornando-se a gratificação RT, que, para o Adjunto 1, em regime de Dedicação Exclusiva, equivalerá a 157,53% do VB, para o Adjunto 4, 141,43% e, para o Associado 1, 191,59%.
8. Com a edição da MP 431/08, o governo afirma encerrar qualquer negociação até 2010.

Em síntese, o governo faz inicialmente um discurso positivo em relação a alguns pleitos dos servidores, mas, nos meandros do que é ajustado, impõe condições que negam ou vão diametralmente contra esse discurso. Exemplo disso é o discurso de valorização do VB, imediatamente contraditado pela política de fortalecimento das gratificações. Outro exemplo é o atendimento à demanda pela extinção da GAE, ao impor como contrapartida a desvinculação dos incentivos de titulação do VB. Em decorrência, a base em que incidem os anuênios e ganhos pessoais é proporcionalmente reduzida. Ou seja, adota a política de dar com uma mão e retirar com a outra.
Nesse quadro, fica evidente que a tarefa colocada para o Movimento Docente se mantém: a reconquista da dignidade profissional dos docentes e do seu projeto de carreira. E isso, só será alcançado, com mobilização e disposição para assumir a luta.
Cabe à categoria, às assembléias de base e às instâncias democráticas de deliberação do ANDES-SN definir quais estratégias desenvolver, respeitadas as condições objetivas existentes para implementá-las.

Encaminhamentos:

• Em relação à discussão sobre indicativo de greve que o Setor das IFES solicitou às seções sindicais, a conclusão foi a de que ele não encontrou a necessária mobilização da categoria. O Setor afirma a necessidade de acumular forças para dar continuidade à luta e não aceitar ausência de campanha salarial até 2010, como pretende impor o governo e continuar solicitando abertura de negociação com o governo. Nesse sentido, aprova os encaminhamentos a seguir.
• Solicitar análises da MP 431/08 pelo GT Verbas e pelo GT Carreira comparativamente à pauta de reivindicações do Sindicato.
• Divulgar e esclarecer as conseqüências negativas da MP 431/08, comparativamente à proposta salarial do ANDES-SN, reiterando a luta pela abertura de negociações.
• Aprimorar a comunicação com a base nos desdobramentos dos impactos da MP 431/08 para a vida dos docentes e das IFES.
• Explorar as diferenças salariais das tabelas de algumas categorias do serviço público federal.
• Retomar a referência do salário-mínimo de DIEESE na elaboração de nossa malha salarial.
• Intensificar a organização da Conlutas e reorganização da CNESF e dos Fóruns/Coordenações estaduais dos SPF.
• Para a próxima campanha salarial, pautar a luta pela reconquista da carreira docente, pela defesa da livre organização sindical e a denúncia da ação antidemocrática da entidade de carimbo.

 


 

Artigos

  • NEGLIGÊNCIA NAS VIGAS PROTENDIDAS DO MINHOCÃO
    Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
    Departamento de Projeto, Expressão e Representação em Arquitetura e Urbanismo,
    da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

  • Carta-resposta do prof. Rodrigo Dantas à profª Elenice Hanna
    Rodrigo Dantas. Chefe do Departamento de Filosofia da UnB

     


     

    Agenda

    10/6 - Assembléia Geral, às 10h, no auditório do Departamento de Engenharia Civil, para escolha de delegado e observadores que participarão do 53º CONAD do ANDES-SN, a ser realizado entre os dias 26 e 29 de junho, em Palmas/TO.

    13/6 - Assembléia Geral dos três segmentos da UnB, às 12h, no pátio do prédio da Reitoria, cuja pauta é: informes; paridade nas eleições; congresso estatuinte paritário.

    23/6 - Assembléia Geral de posse da diretoria da ADUnB eleita em maio deste ano. A Assembléia será realizada no Auditório Dois Candangos, às 17h30.


    Mobilização em defesa da paridade nas eleições

    Panfletagem:

    Quinta-feira (5/6), às 7h50. Concentração no ICC Norte

    Segunda-feira (9/6), às 12h. Concentração no RU

    Quarta-feira (11/6), às 7h50. Concentração no ICC Norte. Às 18h a concentração será na FE


Expediente:
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Redação: Carla Lisboa Foto: Carla Lisboa Diagramação: Ricardo Borges
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