ADUnB


Conlutas

Informativo eletrônico da ADUnB
Brasília
25 de abril de 2008
Nº 48



Assembleia Geral dos docentes, no dia 20 de fevereiro: professores optaram pela manutenção do reitor

 

 


Assembléia geral estudantil, no dia da
ocupação da reitoria, em 3 de abril

 

 


Estudantes mobilizados no térreo do prédio da reitoria
na primeira noite de ocupação da reitoria (3/4)

 

 

 

Na frente do prédio da administração central,
a PM e o delegado da PF, no dia 5 de abril

 

 

 


Paridade é reivindicação antiga

 

 


Assembléia em 7 de abril
reuniu 1.300 estudantes

 

 


Na assembléia do dia 7 de abril,
palavras de ordem e a decisão de reforçar a ocupação

 

 


Reunião do Consuni, no dia 7 de abril,
comandada por Timothy Mulholland

 

 


Ocupação da reitoria

 

 


Assembléia dos docentes do dia 10/4

 

 


No Anfiteatro 9, a assembleia dos docentes no dia 10/4:
professores deliberaram pelo afastamento do reitor

 

 


Senador Eduardo Suplicy na Assembléia Geral
dos docentes, em 10/4

 

 


Professora Dóris de Faria leu a mensagem
de Mulholland, comunicando o afastamento

 


Reunião do Consuni, no dia 15 de abril, que escolheu o jurista Roberto Aguiar para reitor pro tempore

 

 


Em 14 de abril, o Consuni se reuniu para escolher
o reitor temporário e definir os critérios da próxima consulta

 

 


Jurista Roberto Aguiar, reitor pro tempore

 

 


Dia 18 de abril, estudantes entregam reitoria a novo reitor

 

 


Estudantes durante a desocupação do
prédio da reitoria

 

 


Estudantes desocupam o prédio da reitoria
com manifestação e passeata

 

 

Editorial

A crise de gestão na UnB
e o papel da ADUnB

No início de fevereiro, quando constatamos a existência de uma crise de gestão na UnB, evidenciada pelas denúncias do Ministério Público, avaliamos que o problema não estava restrito aos fatos denunciados na imprensa. Em nossas análises, sempre deixamos claro que as irregularidades eram produto de uma gestão centralizadora e negligente com a manutenção dos colegiados.

Entendemos que a falta de transparência na administração era um dos fatores da existência da crise. A relação entre a UnB, a FUB e as fundações privadas, bem como a ingerência do Conselho Diretor da FUB a tomar decisões políticas importantes em detrimento do Conselho Universitário (Consuni), como no caso da determinação de mobiliar, decorar e reformar um apartamento luxuoso para reitor, são alguns exemplos que ilustram nossa avaliação.

Concluímos que, diante dos fatos, precisávamos exigir que a própria universidade investigasse, de forma isenta, as irregularidades. Por isso, tanto na reunião do Conselho de Representantes que antecedeu a Assembléia Geral Extraordinária do dia 20 de fevereiro, como na própria Assembléia, sugerimos o afastamento do reitor e do decano de Administração e Finanças. Nossa proposta foi rechaçada com o posicionamento dos 157 professores que votaram a favor da manutenção do reitor no cargo. Dos 200 participantes, apenas 24 votaram a favor da nossa proposta.

Hoje, depois do agravamento do problema com a ocupação da reitoria pelos estudantes, vimos que nossa análise estava correta. Em 15 dias, a explosão da crise revelou-nos vários aspectos da situação, dentre eles, a fragilidade e a decadência do modelo de gestão baseado na falta de transparência, burocrático e antidemocrático. Outro aspecto que merece reflexão foi a atitude dos membros do Consuni que, de maneira geral, tentaram ignorar a turbulência que invadiu a UnB desde janeiro deste ano e não se reuniram para discutir a gestão em crise, ignorando até mesmo o apelo dos docentes que, na assembléia do dia 20 de fevereiro, deliberaram e indicaram a necessidade de uma reunião desse foro para explicação e esclarecimentos das denúncias.

Assim como o reitor, os conselheiros permaneceram quietos. Somente vieram a se manifestar depois da determinação do ministro da Educação, que, diante da renúncia do reitor e do vice, deu um prazo de 48 horas para a universidade escolher um reitor pro tempore.

Apesar de o Brasil ser estereotipado como um país sem memória, vale lembrar que as denúncias do Ministério Público não só deslindaram as mazelas que estavam ocultas na falta de transparência da gestão dos recursos financeiros, mas também invalidaram definitivamente a eleição de reitor realizada em 2005.

A crise, por sua vez, além de comprovar a ineficácia e o malogro do modelo de gestão, fez com que a comunidade universitária desse um salto de qualidade na sua atuação política e exigisse o debate sobre a paridade nas consultas para reitor. A decadência da gestão justificou, por outra parte, a exigência da realização de um congresso estatuinte paritário, por meio do qual se pretende modificar, dentre outros, o estatuto da UnB. Resultado: a comunidade universitária quer participar da elaboração de um novo tipo de administração e ousa a querer discutir também a estrutura acadêmica.

As irregularidades denunciadas pelo Ministério Público foram a gota d’água para a explosão dessa situação que se arrastava há anos e os estudantes deram o passo radical para iniciar a transformação. Esse é um dos motivos pelos quais reconhecemos a legitimidade do movimento de ocupação estudantes desde o primeiro momento.

Ainda que tenhamos recém-iniciado o processo de transformação e saibamos que as disputas serão intensas, a clareza e os acertos de nossas avaliações e a mobilização dos três segmentos nos levaram à certeza de que estamos aptos para discutir com maturidade a defesa de um modelo de gestão transparente e compatível com a educação superior pública, democrática, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada.

Entendemos que a situação da UnB comprova as análises feitas pelo movimento sindical docente que, há anos, vem denunciando as gestões autoritárias que, por meio de fundações privadas ditas de apoio, favorecem pequenos grupos de poder e transformam a produção universitária em simples produtos de mercado.

Avaliamos que a falta de respostas da administração central foi também um dos fatores do agravamento da crise. Recusar-se a ouvir a comunidade, negar-se a explicar e a esclarecer as denunciados pelo Ministério Público, reduzir os movimentos sociais da universidade a manifestações isoladas com o objetivo de criminalizá-los, enfim, as atitudes arrogantes da reitoria constituíram a série de erros que, no fundo, foi o que levou reitor e vice ao afastamento definitivo e ao fim dessa administração.

A administração central e sua assessoria desprezaram o fato de a UnB não tolerar mais conviver com os constrangimentos provocados pelas denúncias de corrupção e o silêncio do reitor. Esse silêncio, no nosso entendimento, explicitou o sentimento de menosprezo dispensado à comunidade universitária por parte da administração.

Desqualificaram a força dos movimentos sociais internos e se recusaram a entender que não se trata de mera rebeldia de grupos isolados que se aproveitam de “falsas denúncias” para marcar posição. Longe disso, além de as denúncias terem fundamentos, o que ocorreu na UnB foi uma mobilização madura, consistente e consciente do problema. Foi a explosão de um sentimento recalcitrado durante anos e anos de gestões antidemocráticas, sem transparência, privatistas e mercadológicas.

Diante desse quadro, a ADUnB não poderia se furtar a apoiar os movimentos sociais da universidade e nem agir como o ex-reitor, mantendo-se em silêncio, fingindo que não havia uma crise na universidade, até porque, tradicionalmente, o papel do sindicato dos professores sempre foi o de se posicionar ao lado dos movimentos que defendem a universidade pública.

Ora, por que deveríamos abrir mão de nossos princípios justamente neste momento-chave em que a UnB quase ruiu em meio a uma tempestade de falcatruas, em que nossa avaliação sobre a crise de gestão estava correta e, agora, com a nova situação em curso, está prestes a, mais uma vez, transformar a sua história?

Observamos que, além de sempre ter apoiado os movimentos sociais da universidade, independentemente das suas opções políticas, a ADUnB, muitas vezes, foi também protagonista nas grandes transformações ocorridas na história da UnB. Portanto, a diretoria cumpriu o seu papel político e histórico permanecendo ao lado da comunidade da qual faz parte.



Crise na UnB

Entrevista/José Geraldo

O medo de pensar

Um dia depois de o reitor pro tempore ter sido nomeado, o professor do Departamento de Direito, José Geraldo de Sousa Junior, avaliou a situação da UnB e, segundo ele, a crise de gestão revelou, dentre vários aspectos, maturidade no movimento estudantil e infantilidade e medo entre parte dos professores. Segundo ele, a classe docente, ao recuar na deliberação sobre eleições para reitor e congresso estatuinte paritários, na reunião do Consuni realizada no dia 15 de abril, destinada a escolher o novo reitor e a discutir critérios para a próxima consulta, fez com que a UnB perdesse uma oportunidade histórica de construir uma estratégia de mediação para se mover de uma situação de crise para uma outra dimensão de sua superação. José Geraldo acredita que isso faz parte do medo que prevalece entre os docentes de ter de ser chamados a “explicitar as suas concepções quando, hoje, elas [as concepções], não tendo o espaço de grandes confrontos, são apenas pressupostas”. Confira a análise.

ADUnB – Professor, na sua opinião, o que aconteceu na UnB que resultou na explosão de uma crise de gestão e na renúncia do reitor e do vice-reitor?

Acho que sobreposição de três condições de condução do projeto universitário foi uma situação conjuntural que fez eclodir a crise na sua complexidade. A primeira condição é a questão do próprio paradigma de universidade, o modelo acadêmico institucional. A representação do significado de uma instituição universitária é, nesse limiar de milênio, então, a tensão entre a configuração epistemológica do modelo epistemológico mais ou menos esgotado, enquanto um novo modelo está se constituindo e vem se refletindo na busca de configuração de novos projetos de organização da estrutura acadêmico-universitária. A universidade não é mais o único lugar de produção do conhecimento, ela se coloca num contexto do conhecimento num mundo globalizado em que o lugar do conhecimento se tornou estratégico para afirmação de estruturas de poder, então, essa é uma crise macro que vem se refletindo na formação institucional do modelo, que é a concepção de gestão da universidade. Pode ver que as dúvidas, a dificuldade para compreender o que é dimensão pública, dimensão privada, mercado, sociedade, a institucionalização da gestão da universidade, por ação, autarquia, agência, é essa configuração.

ADUnB – Então, trata-se de uma crise de estrutura?

Sim. É uma crise de estrutura porque compreende a questão do modelo epistemológico do modo de organizar o conhecimento e de produzi-lo e de realizá-lo; da forma institucional disso, que tem o caráter político, quer dizer, são disputas de projetos políticos; e a condição específica desse fenômeno na nossa universidade. Então, há alguns anos temos tido debates muito fortes, com disputas sobre projetos de universidade que têm mobilizado os segmentos governamentais, os segmentos das organizações internas à universidade, os professores, alunos, funcionários, as expectativas da sociedade e, no caso da nossa universidade, a tensão entre esses modelos, que a gente tem visto aparecer, sobretudo, quanto temos embates eleitorais para apresentar a disputa desses projetos.

ADUnB – Nessa disputa prevaleceu, nos últimos dez anos, o conceito privatista e mercadológico, que resultou na insatisfação geral.

Nos últimos anos prevaleceu uma concepção mais mercadológica de universidade com um sentido de um produtivismo mais ou menos empreendedorista com uma ênfase no modelo gerencial, burocrático, da instituição, que acabou invertendo os objetivos mais imediatos, fazendo com que a gestão se dirigisse mais para o management, quer dizer, mais para o empreendedorismo do que propriamente para a busca de redefinir as funções organizativas do processo de realização do conhecimento, do ensino. Essa crise se desencadeou a partir do desequilíbrio focal, mas ela ativa tudo. Você vê que os debates são amplos, embora a crise de gestão tenha sido uma espécie de gota d’água.

ADUnB – Apesar da explosão da crise de gestão ter sido resultado das denúncias de irregularidades, malversação de verbas, enfim, da falta de ética com o dinheiro público, nos questionamentos, há um destaque para o problema da mobília e da decoração do apartamento funcional do reitor.

Na verdade, questionam-se a definição das prioridades e a hierarquia das opções gerenciais, quer dizer: optou-se por mobiliar apartamento, por ter apartamento funcional. Você veja que o argumento principal é que o reitor precisava de um espaço para, com certa qualidade, promover as gestões negociais e a captação de recursos para a instituição, captação de projetos. O gerenciamento levou a uma perda de referências sobre a função essencial da universidade e quais são as condições de investimento que devem ser privilegiadas. Privilegiou-se investir na base de negociação, na infra-estrutura, para que os agentes de negócios pudessem atuar segundo as regras do mercado do que propriamente as condições adequadas para uma valorização da produção do conhecimento, que é a função da universidade.

ADUnB – Pode-se dizer que essa reação é uma resistência à transposição de um modelo de academia para um novo projeto de universidade com a globalização?

Sim, porque esse novo projeto retira a questão do conhecimento e da educação daquilo que foi o contexto simbólico de sua construção até aqui, que é a educação como um bem social, como uma condição estratégica do desenvolvimento justo, e referida a uma cultura de direitos, que trabalha com bens indisponíveis, que tem uma referência simbólica em valores de comunidade, de solidariedade, de inclusão, para a educação como um bem de mercado, de serviços, colocados no mercado de alta demanda, abrindo perspectivas para tendência internacional pela reserva de valores econômicos que tem na casa dos milhões de dólares em escala global e que tem provocado, por exemplo, esses movimentos para privatizar o ensino, para deslocar a sua atribuição do Estado para as organizações do mercado, para aquelas mais economicamente estruturadas. Enfim, a expansão pelo privado e não pelo público, o deslocamento do debate que até aqui tem sido reservado por causa, no Brasil, da Constituição de 1988, sob a salvaguarda da educação como direito, enquanto já há uma pressão grande para que essa função, que hoje está sob a regulação do Estado, vá para o espaço da livre iniciativa, desregulada, num mercado em que as regras são definidas pela competição e pelos acordos estabelecidos na Organização Mundial do Comércio.

ADUnB – Isso reduz a capacidade de uma universidade de produzir conhecimento?

Limita, porque especializa o conhecimento para um sentido de utilidade, em commodities.

ADUnB – Tendo como ponto de partida essa situação que o senhor explicou, qual a sua avaliação sobre a atitude dos professores, por exemplo, de não comparecerem, sobretudo, nas instâncias da ADUnB, para discutir tudo isso? Vimos, na UnB, uma parte dos docentes que concorda com essa mudança para uma direção mais mercadológica e, outra parte, que discorda e defende um projeto mais social. Enfim, existe uma resistência ao modelo que está se esboçando e ao mesmo tempo uma defesa incondicional desse novo modelo, principalmente, por meio do REUNI, que anuncia vantagens.

Eu não diria que é resistência. Eu diria que é uma ilusão de conforto. Esse modelo acaba gerando uma perda dos referenciais públicos de discussão sobre prioridades, sobre objetivos, e acaba gerando uma espécie de associativismo compartilhado, de aproveitamento das vantagens aparentes desse outro modelo. Quer dizer, quais as vantagens aparentes? Num sistema de carências e por causa da prioridade da universidade na estrutura dos investimentos públicos, esses ingressos localizados, se eles beneficiam àqueles, por exemplo, que encontram comodidade para gerir seus laboratórios, financiar, vamos dizer assim, as suas estruturas de projeto, então isso gera um certo conforto que é uma espécie de comodismo, de conformismo, não só ideológico, como também axiológico, como valor ativo. Então, num sistema de carências, com tanta falta de recursos por conta dos limites dos investimentos públicos, se você tem verbas originadas desses ingressos para financiar os seus projetos, custear os seus bolsistas, apoiar a sua visibilidade nesse tipo de mercado que se organizou, então, é confortável, é cômodo e ilusório, mas gera um ganho imediato para aqueles que concordam com isso, que se acomodam com isso.

ADUnB – Isso é uma tendência mundial?

Não sei. É uma disputa mundial que, veja você, do ponto de vista dos princípios, tem que ver com os embates que a gente encontra em modos de projetar o mundo: Davos versus Fórum Social de Porto Alegre; o desenvolvimento desumano de um capitalismo é predatório, anti-ecológico, que sacrifica vidas humanas a uma matriz de acumulação; países inteiros sucumbem a essa lógica, como o Iraque, o Afeganistão e países africanos. Por outra parte, temos outras visões com diferentes referenciais, mais politizados ou mais espiritualizados, que apontam para outros caminhos. Veja você um exemplo: o Vaticano indicou os novos pecados, que são pecados sociais, não são pecados subjetivos. Mais concretos, mais ligados ao egoísmo. A gente assiste, nas organizações tradicionais populares e sindicais uma preocupação de não se vincularem apenas às suas expectativas corporativas, mas incluírem nas suas pautas questões que envolvem, alianças que agregam nas lutas populares, nas lutas sindicais, pautas mais solidárias.

ADUnB – Seria uma globalização ao contrário?

Sim.Uma globalização ao contrário, paradoxal, na lógica da solidariedade, escrita na dignidade da pessoa, nos direitos humanos.

ADUnB – Como fica, então, a concepção de público e privado nessa linguagem da globalização paradoxal?

Acho que fica num desenho mais interpenetrável, quer dizer, não é aquela coisa estanque do liberalismo que separa a sociedade de Estado, mas é algo que resgata no Estado o que nele se perdeu de público por causa da apropriação possessiva dos lucros econômicos e dos lucros de interesse e que confronta, no social, aquilo que sob estratégias corporativas ou de interesses deixou de ser referência democrática, de solidariedade, vamos dizer assim, cidadã, para ser fascismo societal, quer dizer, individualismos possessivos, egoísmos associativos.

ADUnB – Se continuar assim, o que pode acontecer no futuro, por exemplo, com a UnB?

Pode resultar nessas pressões que estamos vivenciando. Já resultam. Neste momento já temos tensões como esta que ocorre na UnB em todos os planos, mas tensões que podem ser resolvidas à luz da recuperação de alguns fundamentos que foram perdidos. Por exemplo, você deve ter notado nas assembléias e, sobretudo, na reunião do Consuni do dia 15, era evidente, uma certa alienação dos valores e da solidariedade que deve existir até pela experiência secular dos sentidos da pedagogia, do compromisso que os professores têm de ter com os estudantes. Então isso produziu uma espécie de cisão, como se fossem adversários.

ADUnB – A reação de alguns professores à atitude da diretoria de reconhecer a legitimidade do movimento de ocupação é um exemplo disso? Teve professor que enviou mensagem para a ADUnB questionando e acusando a direção de ficar do lado dos estudantes, outros chegaram a chamar a diretoria de traidora....

Isso! Isso! Os discursos, as formas de encaminhar, a cegueira para compreender a dimensão humana do debate, o resgate do sentido pedagógico da função universitária, aquela noção de que ali nós estávamos num aprendizado recíproco e se alguém tivesse um pouco mais de atenção teria localizado maturidade no discurso dos alunos e infantilidade no discurso dos professores.

ADUnB – Ou será que a cegueira é por conta dos interesses?

Naquela situação eu nem diria que é de má-fé. Ou seja, os interesses produzem uma cegueira. A não ser naquele sentido de Saramago. Eu diria que é uma perda do referencial de humanidade porque o cotidiano se burocratizou de tal forma e a função ficou tão vinculada a uma racionalidade meramente instrumental que os sujeitos perdem a perspectiva, assim, até pode se chamar cegueira, porque perde o horizonte de sentido, o campo de visão do que significa resgatar as condições de solidariedade que deve existir numa comunidade que tem fins comuns, que tem objetivos comuns. E ali, naquela reunião [do Consuni, no dia 15/4], em vários momentos, a possibilidade de conciliação se anunciou e por conta de limites simbólicos para compreender as questões vitais que estavam na mesa de discussão, como, por exemplo, a questão da paridade, tornou-se um obstáculo à percepção dos processos mais qualificados para reconstruir a própria instituição. Aquilo que o reitor indicado chamava de unidade na diferença.

ADUnB – A reunião do Consuni que escolheu o reitor pro tempore poderia ter avançado mais? Ela poderia ter posto os professores ao lado dos estudantes na construção de um novo modelo de universidade? Parece que ao recuarem, os professores perderam uma chance de revolucionar a situação definitivamente.

Na verdade, naquela reunião a UnB perdeu uma grande oportunidade de construir uma estratégia de mediação para nos mover de uma situação de crise para uma outra dimensão de sua superação. Teve os materiais para construir pontes. Imagine você, por exemplo, os estudantes mobilizados, galvanizados por uma referência ética que foi produzida num diálogo com a sociedade, porque combinou discursos da Justiça, do Ministério Público, discursos da interpretação da condição social pelos editoriais dos jornais e aquele princípio que, nos últimos anos, como que abriu um horizonte de sentido na pauta das lutas sociais pelo significado da ética na política ou da ética nos negócios, porque se a gente presta atenção naquela tensão que eu lhe dizia ainda há pouco, observe: quem ganhou o Prêmio Nobel da Paz mais recentemente? Um banqueiro. Quem ganhou o Prêmio Nobel de Economia? Um economista que trouxe uma concepção de justiça para o desenvolvimento.

Quer dizer, a gente assiste, no campo dos negócios, na luta econômica, uma tentativa de recuperar a função política da economia que foi a sua origem no liberalismo com a idéia, desde Adam Smith, de que o que move esses processos são sentimentos morais, que era o título de um de seus livros principais, para reificar a nossa prática política; e no campo pedagógico, transformar isso num procedimento de tal modo burocrático que a gente perdeu a dimensão do humano que deve presidi-la. Eu senti um desalento pela perda desse humano em boa parte dos debates ocorridos na reunião do Consuni no dia 15 de abril, que criou uma espécie de clivagem entre, por exemplo, alunos, professores e funcionários; entre professores e professores; e entre alunos e alunos; e a perda de oportunidade de ter uma saída. O reitor designado também se referiu a isso, quer dizer, colocarmo-nos numa posição de grandeza para enxergarmos para além do horizonte dos nossos interesses imediatos.

ADUnB – Parece que a UnB foi a primeira a resistir a isso, claro que teve a forte ajuda do Ministério Público....

Mas é como eu te disse, aquela sobreposição de expectativas originadas das transições entre modelos já vinha registrando as condições para isso.

ADUnB – Pareceu que, com as renúncias do reitor e do vice, bem como com a reunião do Consuni em seguida, a UnB ia ser a primeira universidade a romper com os projetos privatistas e inovar nessa resistência. O que o senhor acha: parecia que ia dar um passo à frente e não foi bem assim?

Não mesmo. Mas eu acho que nós ainda estamos no movimento do andar. Quer dizer, já temos a metáfora do caminhar. O caminho se faz caminhando. Não há precondições nem há garantias. É um exercício cotidiano. Então, acho que estamos na “andadura” e nessa situação há avanços e recuos, porque é um procedimento de conversação, de diálogos, de ganhos e de perdas. Refiro-me a ganhos e perdas no sentido de disputa por bons argumentos, por boas práticas. Acho que estamos aí. Você veja que até o limite da renúncia tínhamos a impossibilidade do diálogo, uma tentação clara de se criminalizar o processo, o que exigiu esforços tremendos, inovadores e bem-sucedidos, com mediações adequadas para inibir a possibilidade de concretização de medidas de força, incluindo aí (olha que avanço!) que o lado mais avançado para essa discussão fosse a segurança: a Polícia Federal abrindo mesa de negociação enquanto os pedagogos, quer dizer, aqueles que foram educados para estratégias de educação e, portanto, de persuasão, deixassem-se tentar pela facilidade do método disciplinar, quando chama a polícia para disciplinar.

O que fez o novo reitor? Ele reocupou a reitoria. Olha só, de uma maneira simbólica, ele subiu a rampa, recuperou os espaços da reitoria, e pelo diálogo. Certamente, ainda que, naquele momento, não houvesse uma decisão política de retirada, a continuar daquele modo, com a convocação de seus quadros, em pouco tempo ele reocuparia a reitoria. Olha só, onde é que ele marcou de conversar com você? Na reitoria. Então, acho que aprendemos e conseguimos, nessa experiência, desenvolver um debate em plano político elevado. Achei interessante que diante de várias tendências se conseguiu fazer uma espécie de protocolo de entendimento mínimo para, em questões centrais, estabelecer uma pauta cujo centro é a questão propriamente dita do projeto de universidade e eles acertam no essencial.

Eles podem errar no procedimento, na execução, mas no essencial eles estão acertando porque eles estão abrindo a discussão sobre essa transição, enquanto nós acertamos no incidental, eventualmente, estamos errando no essencial porque estamos camuflando o verdadeiro debate e fugindo do valor mais pedagógico do conflito, quer dizer, do valor do conflito. O conflito é valioso.

ADUnB – O verdadeiro debate seria, então, esse conflito?

Sim. Esse conflito. Porque o conflito obriga a se dizer a emergência das concepções. Então o conflito é o elemento nuclear de todo o processo de análise das mudanças do real. É o conflito! Quando você está no conforto do burocrático, você não tem contradições. Por exemplo, se você tem um sistema mesmo que seja burocrático, que se fecha e elimina as divergências, ele se esgota em si mesmo, perde a sua capacidade de autocrítica e aí não sabe discernir um projeto de universidade nem a relevância de um curso aplicado num embelezamento funcional de um apartamento, quer dizer, perdeu a referência porque todos estão de acordo. Então, por exemplo, estancar o curso do debate, restringir os espaços públicos de discussão, de comunicação, é fechar-se num horizonte de auto-esgotamento.

ADUnB – A UnB foi “resgatada”?

Eu acho que o processo em si salvou a UnB. A crise salva a UnB do modo como ela está sendo conduzida. Você veja o seguinte: num primeiro momento os estudantes eram agitadores, eram ilegítimos, reivindicando que a democracia passava pela institucionalização, claro que passa! Mas passa pelos movimentos! Agora, os movimentos não são tutelados. Eles atuam no campo da política, as conseqüências são políticas e nós nos posicionamos em função dos nossos referenciais nesse processo, mas não podemos tutelar o movimento, podemos extrair conseqüências das suas ações. Agora, são os movimentos, historicamente, que criam os parâmetros de legitimidade e as instituições se recriam, que é algo que está aí colocado no debate sobre a paridade. Coisa incrível! O ministro está dizendo, o ministro, que é o regulador está dizendo, “eu aqui, em função da construção jurídica, da experiência, tenho catálogos de modelos que envolvem desde formas ampliadas de representação até paritárias!”. Ele está dizendo isso e nós aqui dizendo que não estamos maduros para discutir a paridade. Claro que estamos! Estamos é com medo de sofrer as conseqüências da refração de nossas posições.

ADUnB – Professor, naquele momento achei que, no fundo, a reação dos professores e a decisão de aceitarem as coisas como estavam era medo. Agora, depois do Consuni do dia 15, vi o medo da paridade. É isso mesmo, é medo da paridade? O que o voto paritário pode trazer de ameaça aos professores que desperta tanto medo?

O medo de ser chamado a explicitar as suas concepções quando hoje, elas, não tendo o espaço de grandes confrontos, são pressupostas. Elas não passam pela prova da realidade. É o medo de pensar. O novo implica ter de abrir-se à construção de novas categorias e que elas têm de responder aos apelos do real, podendo ser modificadas, e não querer conformar o real aos modelos que a gente sabe aparelhar, que a gente sabe, vamos dizer assim, lançar num Power Point. É um medo epistemológico, porque significa testar cotidianamente a validade de nossa capacidade de interpretação do real, mas é um medo também político. Eu acho que toda a referência do que se passa tem de ser articulada sob a sua dimensão teórica, epistemológica, e na sua dimensão política, social, político-social. É um medo político porque nós já não temos tanta confiança nos modelos de gerenciamento e de explicação que a gente dispõe. A gente já não tem mais tanta confiança. E também em relação a nossa função social.

O problema é que nós, em vez de exercitarmos as nossas angústias, estamos sucumbindo a elas. Isso complica tudo porque a gente perde os referenciais. No campo da vida tem outras formas de articular os processos, incluindo aí, os processos de conhecimento, e a gente perde terreno, a gente se desfuncionaliza, a gente se deslegitima e a gente coloca de forma anacrônica.

Eu ainda acho que embora ainda tenha muitas dimensões para articular processos de conhecimento, a universidade continua a ser aquele espaço aberto onde todas as formas de saber dialogam. Por isso, ela ainda é um lugar privilegiado, um lugar estratégico. Nos outros espaços, as intolerâncias, os sectarismos, as concepções de mundo acabam fixando códigos de admissão, e, no nosso espaço, as diferenças ainda dialogam.


 

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