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Informativo eletrônico da ADUnB
Brasília
29 de março de 2007
Nº 3

 

Inferno no CEU

Estudantes africanos são vítimas

de xenofobia e racismo na UnB

Cerca de 300 estudantes ocuparam, no início da tarde de ontem, o Auditório Dois Candangos, na UnB, onde ocorria um debate intitulado “Universidade Pública: expandir até ficar do tamanho do Brasil”, com reitores de todo o País, para protestar contra uma ação criminosa de discriminação racial e xenofóbica da qual estudantes africanos foram vítimas na madrugada de quarta-feira.

Por volta das 4h, dez moradores da Casa do Estudante Universitário (CEU) foram surpreendidos pelo cheiro da fumaça oriundas de um incêndio em três apartamentos do bloco B. As portas de três apartamentos foram incendiadas e os estudantes tiveram de fugir pelas janelas.

Emocionados, eles contaram que os agressores tiveram o cuidado de calafetar as portas antes de atearem fogo, o que dificultou a fuga. Os quatro moradores do apartamento 106 e os três do 112 escaparam pela janela, mas as três estudantes do apartamento 207 tiveram de aguardar a chegada de socorro. Os responsáveis pelo incêndio esvaziaram os extintores de incêndio do primeiro e do segundo andares e uma explosão foi ouvida no momento do tumulto.

O guineense Helmer Sequeira, estudante do 8º semestre do curso de Sociologia, contou que as ameaças vêm ocorrendo há muito tempo até que culminaram no atentado de quarta-feira. No discurso que fez na reunião dos reitores, ele recordou o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, morto em um ponto de ônibus na avenida W3 Sul, em abril de 1997, por cinco jovens da classe média de Brasília. “Vamos chegar ao ponto de eles fazerem isso conosco? Não queremos morrer ainda. Tudo que queremos é um diploma”, disse.

Os estudantes declararam que há mais de um ano uma comissão de três africanos vêm tentando uma audiência com o reitor, Timothy Mulholland, para discutir soluções não só para as precariedades da Casa do Estudante Universitário, mas, sobretudo, para as ameaças de morte que os negros estrangeiros vêm sofrendo. “Precisou de quase acontecer uma tragédia para que fôssemos recebidos pelo reitor”, disse um dos estudantes negros.

Durante a manifestação, o decano de Graduação, Murilo Camargo, que divida a Mesa com o reitor da Universidade Federal da Bahia, Naomar Almeida, tentou várias vezes informar que a reitoria estava tomando providências no sentido de apurar e punir os responsáveis, mas foi ofuscado pelas palavras de ordem dos manifestantes. A cada tentativa de intervenção do decano, os estudantes que lotaram o auditório gritavam palavras de ordens ao som de tambores. Ele tentou dizer também que a UnB não faz vistas grossas para esse tipo de problema. “Gostaria de lembrá-los de que a UnB foi a primeira universidade a implantar o sistema de cotas para negros no País”, justificou.

Os alunos, por sua vez, cobraram a implantação de uma política específica destinada a discutir e esclarecer as ações afirmativas adotadas pela universidade. No site da UnB, a Assessoria de Comunicação da instituição afirma que o reitor tomou providências, criando um programa contra o racismo e a xenofobia na universidade.

Os estudantes questionaram também o debate dos reitores e indagaram sobre como poderiam estar discutindo a expansão da universidade sem criar políticas contra a xenofobia e a discriminação racial.



Agressões são reincidentes

Em fevereiro, os estudantes se depararam com pichações xenofóbicas e racistas nas paredes do prédio, como “vamos matar os playboys estrangeiros” e cruzes pretas pintadas na porta dos apartamentos. Na ocasião, segundo Sequeira, os estudantes procuraram ajuda no Decanato de Assuntos Comunitários e na Diretoria de Desenvolvimento Social e nada foi providenciado.

“Nesse caso, a UnB procurou contornar a situação para evitar expor a imagem da instituição. Ainda assim, eles registraram queixa na administração”, disse Sequeria. Em declaração para a imprensa, a estudante senegaleza de Letras, Wolette Thiam, disse que “a administração mandou pintar as paredes enquanto não havia ninguém no local.

O guineense, Adilson Fernandes, estudante do 5º semestre de Ciências Sociais, contou que até mesmo uma carta foi produzida exigindo a expulsão dos africanos do CEU e que não estão fora da UnB porque o reitor se recusou a assiná-la. Para evitar maiores conflitos, a reitoria decidiu, desde o atentado de quarta-feira, retirar 16 estudantes africanos do CEU e levá-los para um hotel até que os responsáveis sejam identificados e a situação volte ao normal.

As vítimas recorreram a várias instâncias do Estado a fim de denunciar o problema. Formalizaram queixa na Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Sepir), na Procuradoria Geral da República e no Ministério Público, de onde foram encaminhados para a Polícia Civil para abrir um inquérito, mas a Polícia Federal é que foi ao local do incêndio para fazer a perícia e iniciar as investigações.

 

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