Informativo eletrônico da ADUnB
Brasília
21 de dezembro de 2007
Nº 73

 

 

CAMPANHA SALARIAL


NOTA DO SETOR DOS DOCENTES DAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO SUPERIOR – IFES DIRIGIDA AOS PROFESSORES


Em sua última reunião em 2007, realizada em 15 de dezembro, o setor das federais do ANDES-SN fez uma avaliação da campanha salarial e de outras lutas desenvolvidas pelo Sindicato ao longo do ano, em particular a de enfrentamento com o REUNI nas universidades federais. Dessa avaliação, algumas questões merecem destaque.

1. Os ganhos salariais conseguidos na mesa de negociação não estão garantidos

O começo de 2007 foi marcado pelo anúncio do PAC, do qual faz parte o Projeto de Lei Complementar 01/07, de 2 de fevereiro, que propõe emenda à Lei de Responsabilidade Fiscal para congelar as despesas da União com pessoal, até 2016, o que indicava um quadro de grandes dificuldades para que a campanha salarial tivesse êxito. O ano termina com derrubada da CPMF, a que o governo responde com ameaças de cortes orçamentários e, até mesmo, suspensão de acordos salariais firmados com entidades de servidores federais. Em todas as situações prevalecem, para o governo, sobre todas as demandas orçamentárias, as metas de superávit primário. Isto é, os compromissos com a banca são prioritários em relação a qualquer outro.

Embora o PLC 01/07 esteja em compasso de espera devido à luta das entidades sindicais de servidores, o governo utilizou-se do argumento da possível aprovação deste para pressionar as entidades na Mesa de Negociação ao longo do ano. O objetivo principal do referido projeto de lei complementar é o de estabelecer para o Ministério do Planejamento uma previsibilidade do comportamento do orçamento nos próximos anos. Ele define que as despesas com pessoal a cada ano não poderão exceder as realizadas no anterior acrescidas da inflação e de 1,5%. Este percentual corresponde ao crescimento vegetativo da folha de pessoal, que corresponde basicamente às promoções nas carreiras. Contando com metas de inflação e de variação da arrecadação, o governo pôde prever para os próximos anos a participação das despesas de pessoal no conjunto de cada orçamento anual. Assim, o governo, na negociação salarial realizada este ano, pôde propor medidas a serem adotadas em 2008, 2009 e 2010, pois ele já tinha estabelecida a previsão orçamentária para todo o período. As despesas decorrentes de reajustes salariais, recomposições de malhas salariais e contratações devem estar contidas no planejamento feito agora para os anos seguintes. Com isso, o atual governo estabelece a novidade: realizar uma única negociação salarial durante todo o mandato, livrando-se das campanhas salariais anuais. Isso está muito claro na proposta de termo de acordo que o governo apresentou no dia 5 de dezembro referente às negociações relativas aos docentes da carreira do magistério do ensino superior: “As entidades sindicais representativas dos servidores das Instituições Federais de Ensino, signatárias deste instrumento reconhecem os termos deste Acordo, cientes de que o mesmo tem valor para as partes até o ano de 2010”. (grifo nosso)

Ou seja, as entidades sindicais são chamadas a firmar compromisso de que não promoverão campanhas salariais em 2008, 2009 e 2010. Isto é, as entidades deveriam, em nome de suas bases, aceitar que as despesas com pessoal já estão definidas, pelo menos, até o final do atual governo.

Antes mesmo de apresentar a proposta de termo de acordo, o governo já anunciava que, caso a renovação da CPMF não fosse aprovada, os possíveis acordos salariais poderiam ser revistos. E a renovação não foi aprovada pelo Senado. Portanto, o que foi conquistado, com validade até 2010, não está garantido. Em outras palavras, o governo assina acordos que já anuncia não poder cumprir.

2. O sindicato continua disposto a negociar e fará campanhas salariais nos próximos anos

O não-cumprimento de acordos por parte do governo é recorrente. Nos últimos três anos, ocorreram diversas greves de servidores que reivindicavam quase que exclusivamente o cumprimento de acordos por parte do governo feitos em anos anteriores e não efetivados. É o caso da última greve dos servidores técnico-administrativos das IFES, realizada este ano, com o objetivo de exigir o cumprimento das etapas de implantação do plano de carreira. Esta greve terminou com a assinatura de mais um termo de acordo. Até o momento, o governo ainda não elaborou os instrumentos legais para efetivá-lo.

Os acordos salariais e suas possíveis revisões estão, hoje, dependentes das soluções que o governo encontrar para compensar a diminuição da receita pela queda da CPMF. Estas, como mencionado anteriormente, deverão garantir, em primeiro lugar, o cumprimento das metas de superávit primário.

Mais grave que não cumprir compromissos é não respeitar o que a Constituição determina, desde 1998, ao governo: a revisão anual dos vencimentos dos servidores públicos. Fernando Henrique, nos primeiros anos, ignorou a determinação constitucional. Em 2001, aplicou-a em índice inferior à inflação, o que motivou a greve dos docentes realizada naquele ano. Nos anos seguintes, os reajustes foram aplicados cada vez com índices mais baixos, até Lula anunciar e não cumprir insignificante 0,01%. Na mesa de negociações, instituída em seu primeiro mandato, o assunto era proibido e termina o mandato já sem conceder qualquer índice. Talvez contando com a possibilidade de o STF respaldá-lo, passa continuadamente a desrespeitar a Constituição. Até mesmo sentenças judiciais que favorecem servidores o governo não cumpre.

O setor das federais alertou, então, que a disposição do ANDES-SN em continuar negociando é garantir os avanços obtidos até o momento e conquistar melhorias para toda a categoria. Assim deve proceder nas negociações que continuam em relação aos docentes da carreira do 1º e do 2º grau e na continuidade de negociações para o magistério do ensino superior. Na virada do ano daremos continuidade ao processo de negociação de 2007, como base de construção da campanha salarial de 2008, cabendo ao 27º CONGRESSO (de 14 a 20 de janeiro) estabelecer suas diretrizes.

3. Em defesa da democracia e da autonomia nas universidades federais

Na defesa da universidade pública, de sua qualidade e gratuidade e da valorização do trabalho docente, o Sindicato tratou a campanha salarial e a luta contra o REUNI combinadamente, o que é avaliado pelo setor como correto. Essa combinação foi expressa em cartaz da campanha salarial, com os seguintes dizeres: “Professor, o governo já definiu nossos aumentos: Trabalho 100% (REUNI), Salário 0% (PLC 01/07).”

Uma das características da ação do ANDES-SN, ao longo do ano de 2007, foi a de, nas análises das políticas e propostas feitas e implementadas pelo governo federal, não se ater a suas aparências e aos limites dos discursos populistas que as justificavam. Esse comportamento foi mantido ao longo de toda a campanha salarial e em relação ao REUNI, tema que foi candente nas universidades federais nos últimos meses do ano, período em que se desenvolveram as negociações salariais com o governo. 2007 foi o ano do PAC e suas versões para diversas áreas. Na educação, em abril, foi lançado o PAC da Educação, que ganhou o nome de Plano de Desenvolvimento da Educação, PDE. Dele fazem parte decretos e portarias relativos às IFES, como o que institui o REUNI, o que cria os IFET e o que estabelece o banco de professor equivalente.

Um dos principais problemas do REUNI foi o prazo estabelecido para a adesão das universidades. Qualquer educador, minimamente sério, sabe que não se faz um plano de expansão e de reestruturação acadêmica em poucos meses, principalmente se a pretensão é a de envolver o conjunto da instituição na sua elaboração. Ao mesmo tempo em que mostravam os efeitos deletérios do REUNI, o ANDES-SN e suas seções sindicais atuaram, em conjunto com todos os segmentos que questionavam a pressa na aprovação da adesão ao REUNI no interior das universidades federais, no sentido de que os processos fossem transparentes, democráticos e que seguissem as regras legais de cada instituição.

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior - ANDIFES, em nota de 31 de outubro de 2007, defendeu a aprovação de projetos em conselhos superiores como sendo “atitude democrática de dirigentes das IFES”. Os fatos, no entanto, mostraram, em várias universidades, que, infelizmente, isso não correspondeu à realidade, não passando de retórica e que há uma inversão da democracia. Ao invés do poder ser de baixo para cima, ele é imposto de cima para baixo. A mesma nota ameaça que “a defesa da universidade pública, de sua autonomia, pluralismo e liberdade, verdadeiras cláusulas pétreas de uma academia, terá de ser garantida com firmeza e por todos os meios legítimos e legais à disposição, sob pena de desmoralização das instituições, deterioração do patrimônio público e falência das conquistas democráticas, tão arduamente construídas em nosso país”. (grifo nosso)

Essa foi a retórica que respaldou reitores que apelaram para o uso de ações repressivas se apoiando em forças policiais. Rompem esses reitores com a função educacional e limitam-se hoje à condição de gestores de recursos, o que possibilita a subserviência aos ditames e chantagens do governo, que acenou com verbas para as universidades que aderissem ao programa. Mas, como no caso dos salários dos professores, os acordos propostos em relação ao REUNI não garantirão os recursos. O governo não conseguiu a renovação da CPMF, mas conseguiu a renovação da DRU, que retira recursos da Educação. E, agora, ameaça com mais cortes. O financiamento das IFES, já profundamente insuficiente, corre sérios riscos de redução a partir do próximo ano e, com isso, estão ameaçadas as promessas de contratações, de investimentos e de remuneração dos docentes. 2008, portanto, não promete ser um mar de rosas. Isso não impede o Sindicato de desejar um feliz ano novo para todos. Será mais um ano de lutas, mas esta é a razão de ser de um sindicato.

 

Brasília, 15 de dezembro de 2007

 


Setor dos Docentes das Instituições
Federais de Ensino Superior - IFES



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