Informativo eletrônico da ADUnB
Brasília
17 de abril de 2007
Nº 18
Devido a dificuldades técnicas do nosso Provedor de Internet,
o site da ADUnB ficou fora do ar durante três dias na semana passada.
Esses problemas estão sendo resolvidos gradativamente.




A pedido do professor Frederico Flósculo Pinheiro Barreto:

 
 
 

REFLEXÃO SOBRE O ATAQUE DO 28 DE MARÇO AOS ESTUDANTES AFRICANOS –
O PADRÃO HISTORICAMENTE OMISSO DA REITORIA

 

Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto
Departamento de Projeto, Expressão e Representação em Arquitetura e Urbanismo

Um aspecto relevante do episódio do ataque com viés racista aos estudantes africanos alojados nos blocos de residência estudantil da UnB, ocorrido na madrugada de 28 de março de 2007, diz respeito à conduta da Administração Central da universidade, em todo o caso.

Pela frase TODO O CASO, quero fazer referência à década e meia em que tenho acompanhado alguns eventos relacionados a esse nosso desastroso estilo administrativo de sucessivos reitores, que se caracterizam por tentar jogar para debaixo do tapete as decisões sérias, que deveriam ser tomadas. Tanta sujeira debaixo do tapete faz com que ele vire uma espécie de “colina” no meio de nossas salas de aula, de nossos salões e auditórios. Todos tropeçaremos nela, nessa inaceitável topografia de omissões e cumplicidades.

Peço licença para relembrar um fato passado, que quero ligar a esse evento do atentado contra a vida dos estudantes africanos.

Em 1994, há 13 anos passados, fui inadvertidamente nomeado pelo então reitor João Cláudio Todorov (psicólogo, como o atual reitor, Timothy Mulholland), presidente de uma comissão de sindicância que tinha como objetivo apurar a conduta de 2 estudantes moradores na CEU (Casa do Estudante Universitário). Esses estudantes (homens e negros) haviam sido denunciados por 2 outras estudantes (mulheres e negras), que se viram ameaçadas de agressão física – e uma delas foi efetivamente agredida por um deles -, por reclamarem de uma tremenda festa realizada no local, dentre outros feitos da dupla.

Aquela foi mesmo uma festa de arromba, e rolou tudo o que se possa imaginar no mundo dos vivos – e dos que são mais vivos que os outros. Drogas, sexo, rock-roll, e pancadaria. No dia seguinte, a CEU estava imunda, fedendo a tudo tipo de imundície. As alunas, do curso de Enfermagem, tinham plantões a enfrentar, leituras a fazer, mas sem a menor condição para isso, sem descanso na sua residência, para perfazer a sua rotina de estudantes.

A comissão de sindicância - composta ainda por uma professora do Instituto de Psicologia, e por um funcionário da Prefeitura - ouviu a todos os estudantes diretamente envolvidos e a todos os demais estudantes, funcionários e autoridades indicados por esses estudantes. Em meio a declarações claras, a depoimentos bem delineados, apuramos a responsabilidade dos 2 estudantes denunciados por uma série de ações: ameaça de agressão física, efetivação da ameaça, danos ao patrimônio, entre outras.

O RISCO QUE AS ESTUDANTES CORRERAM

As estudantes que fizeram a denúncia sabiam exatamente do risco que corriam, mas as ameaças e agressões fizeram com que elas tomassem a difícil decisão de correr esse risco, mesmo que muito amedrontadas: o risco de denunciar colegas com tal desenvoltura no campo do “bullying” e do uso abusivo da Residência Universitária (um deles era “dono” de uma mesa de sinuca, de equipamentos de som e outros materiais e produtos de fumar e cheirar, que explorava, declaradamente, explicitamente, notoriamente – e a própria decana de Assuntos Comunitários, chamada por nós, declarou candidamente saber “dos problemas desse estudante” -; quanto a esse empreendedor estudante, a primeira providência da comissão de sindicância foi pedir-lhe que tirasse dos pés de cima de nossa mesa, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde o ouvimos).

Recomendamos a punição desses estudantes à Administração Central. Uma medida imediata seria a retirada dos 2 estudantes da CEU, para a segurança das estudantes – e de toda uma comunidade de estudantes, parte da qual compareceu para depor, confiando nas garantias que lhes demos, e que estava atemorizada pela conduta desses 2 estudantes: eles “faziam o que queriam”, e tinham certeza de que “nada lhes aconteceria”.

As garantias que demos aos estudantes foram muito simples:

  • a nossa comissão era séria e apuraria com rigor e isenção;
  • a Administração central era séria, e tomaria as medidas cabíveis;
  • a ordem, a tranqüilidade, a paz universitária seriam preservadas;
  • os estudantes denunciados teriam todas as chances legais, regimentais e acadêmicas cabíveis, de defesa e recurso.

Apenas a primeira garantia se revelou assegurada.

A última garantia sequer foi testada nas instâncias que deveriam ter se seguido: a Administração Central quase imediatamente engavetou o processo – e dentro dele uma apuração bem feita e bem fundamentada, que poderia exemplificar uma ação administrativa simples, sem nódoa. Ficamos, todos os membros da Comissão de Sindicância, chocados com a decisão superior.

NADA aconteceu aos estudantes denunciados, para o horror das estudantes denunciantes, e de todos os depoentes a quem demos garantias, em nome da instituição. Nós os “devolvemos à própria sorte”. A instituição lhes disse, de dentro de uma gaveta: VOCÊS QUE BRIGUEM E SE RESOLVAM.

Além disso, do ponto de vista da Comissão de Sindicância, os nossos nomes de professores e funcionários foram colocados à disposição da UnB, para vivermos o que considero até hoje uma tremenda PALHAÇADA.

A segunda e a terceira garantias se mostraram totalmente infundadas, portanto.

 

OMISSÃO NA AÇÃO E CLONAGENS NAS PERSONALIDADES PÚBLICAS

Quando ouvimos as atuais vozes dos estudantes ao longo de todo esse episódio de atentado contra as vidas dos estudantes africanos, que colocam explicitamente o padrão de omissão da Administração Central da UnB - tanto com respeito aos estudantes africanos viciosamente ameaçados por alguns estudantes, quanto das reclamações de estudantes com respeito a festas, ao desrespeito ao descanso, ao silêncio, etc, nas dependências da CEU (perpetrados por vários grupos de estudantes e seus visitantes) - essa retrospectiva que faço parece confirmar esse padrão: a Administração Central é OMISSA com respeito a fatos básicos da ordem interna da universidade.

Atribuo isso ao perfil dos administradores e à evolução política da própria UnB, desde o fatídico ano de 1994 - aspecto que merece algum exame.

Esses nossos reitores psicólogos parecem ter mesmo algo em comum: não são da área da psicologia das organizações, e apresentam padrões de conduta assemelhados: são mestres na confabulação que fazem acerca da instituição e de seu papel nela. Fantasiam acerca de uma “universidade nova”, de um “projeto original da UnB”, e nessa lenga-lenga, buscam se confundir com a história da própria universidade. O seu padrão comum - de omissão administrativa, onde demonstram não serem capazes de ações terminativas em vários domínios da vida universitária - parece ir ao encontro desse jogo que pode ser reconhecido nas duas administrações, Todorov-Mulholland: o jogo de cortinas de fumaça, a evocação fúnebre do passado, que paira sobre a sua própria falta de propostas, sua falta de caráter (no sentido administrativo do termo), sua falta de autenticidade (no sentido político do termo)..

São reitores que usaram - e usam - as notáveis imagens do passado para tentar pregar uma peça na UnB, de resgate do passado assegurando sua competência no presente. Na verdade, eles se alimentam magicamente do passado, não discutem o presente, não o querem discutir, pois assim se exporiam em todas as suas limitações. Não é resgate, é seqüestro de idéias e personalidades. Não é reflexão, é antropofagia.

Esse tipo de antropofagia das personalidades e idéias do passado, contudo, é compreensível e cada vez mais comum: até o Arruda que ser o JK, o Lula quer ser o Getúlio, o Collor queria ser Dom Pedro I (e o FHC, em sua imensa humildade, queria ser o Figueiredo, pedindo que esquecessem o que escreveu e escoiceou). Na atualidade, não se exige caráter de quem aspira ao poder, mas ao chegar lá vemos que os poderosos querem aparentar algum, e podem, literalmente, PAGAR E NEGOCIAR, a partir de suas posições de poder, para ter algum (caráter). Mas isso não nos preocupa aqui, apesar de entristecer.

O que realmente preocupa é o esforço que os poderosos fazem para colar suas mentiras. Há um investimento pesado nisso, um lobby de personalidades clonadas e transplantadas. Ainda não temos o nosso Marcos Valério universitário, diga-se de passagem (ou tivemos, ou temos, sabe-se lá o que o braço armado das Fundações de Apoio anda aprontando enquanto isso). Mas há, em curso, na UnB, um verdadeiro projeto de depuração do passado, que necessariamente atinge o presente, para pavimentar o futuro de determinado grupo político da Universidade de Brasília, que começa com o inescrutável Todorov.

Há muito esforço investido em evocar o passado para que, travestidos de Anysio Teixeira, de Darcy Ribeiro, entre outras figuras até agora avaliadas positivamente, os medíocres atores políticos do presente possam alçar seus vôos mitomaníacos.

Claro, eles têm todo o direito a se fantasiar do que quiserem. O Poder é sempre um espetáculo, até num rude condomínio suburbano. Mas isso nos toma tempo, energia, e traz um péssimo ensinamento – quando vem de uma Universidade: o importante é mesmo a IMAGEM, o importante é a VERSÃO bem-construída, bem reforçada, a ESTORINHA que se impõe ao fato, ao real. Historiadores viram marqueteiros. Essa é a lição que depuro da dupla Todorov-Mulholland, do meu limitado ponto-de-vista: a nossa imagem “a gente inventa”, mesmo que ninguém acredite nela, de verdade. Mesmo que a derrière do Magnífico Reitor fique à vista. Mas o Rei não está nu. O Rei está vestido, mas com a roupa de outro.

Ao se omitir, e ao se travestir de defensor da igualdade racial, sem sequer saber direito o que realmente acontecera na CEU, o reitor Timothy Mulholland, que não é bobo, viu que ia sobrar para ele. A década e meia – no mínimo – de omissões quanto aos problemas na Residência Universitária (entre muitos outros, como na FAUUnB) ficariam evidentes: os grupos em conflito passaram a se enfrentar DIRETAMENTE, já que a administração não faz o seu papel.

 

A NOVA UNIVERSIDADE OMISSA E SUAS VELHAS LIÇÕES

Na Nova Universidade Omissa, Estudantes trabalhadores têm que conviver com estudantes violentos, seja qual for sua raça, credo, sexo, orientação sexual, o que seja. Professores trabalhadores têm que conviver com professores corruptos. A omissão apaga os limites, elimina as referências. Em nome de um projeto político medíocre, instala-se uma forma de barbárie.

Pior, a Universidade diz que “avança” sobre esse passado, sem acertar as contas com ele, sem aprender com os próprios erros. Esses erros vão se repetir, como veremos – aplica-se aí a Maldição de Santayana, dos que não aprendem com a História, com o agravamento criado pelo uso seletivo de uma certa “história” desta Universidade, e desta Cidade. O tapete-colina, cheio de sujeira e mentiras, crescerá.

A questão-chave aí é a ORDEM, algo pelo que a administração deve zelar – e colocar em discussão: que “ordem” nós queremos mesmo nesta Universidade ?

A ordem dos que mais gritam e mais podem ?

A ordem dos que mais captam e mais podem ?

A ordem dos que mais se fantasiam dos fantasmas do passado, e querem mais poder ?

A ordem dos que obedecem bovinamente, e formam um rebanho altamente titulado e feliz, com suas bolsinhas e pesquisa e outros pequenos golpes em nome do conhecimento e da sociedade ? (Como é fácil anestesiar um grupo tão informado e capaz de promover transformação !)

A ordem de quem deseja colocar a universidade como um projeto público e transformador - sem truques, sem mentiras, sem essa arcaica falta de autenticidade ?

Há uma questão de ordem a ser colocada, é a provocação que deve ser feita.

 


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